Título: Dantas indiciando por corrupção
Autor: Samantha Lima
Fonte: Jornal do Brasil, 14/04/2005, Economia, p. A17

PF enquadra banqueiro também por formação de quadrilha e divulgação de segredo em investigação de espionagem No terceiro revés consecutivo desde o início da semana, o empresário Daniel Dantas foi indiciado ontem pela Polícia Federal por corrupção ativa, formação de quadrilha e divulgação de segredo (espionagem) no inquérito que investiga seu suposto envolvimento na contratação da Kroll para montar um esquema de espionagem contra a empresa Telecom Italia, com quem o banqueiro mantém disputa judicial em nome de sua ex-controlada Brasil Telecom. Com o banqueiro, a PF encerrou a fase de depoimentos das investigações e, até o fim da próxima semana, encaminhará o inquérito, com um total de 20 indiciados, ao Ministério Público. Dantas encerra a lista dos acusados.

O prenúncio da decisão contra Dantas ocorreu dois dias antes, quando a executiva Carla Cicco, indicada por ele na presidência da BrT, foi indiciada pelos mesmos crimes no mesmo inquérito. Entre um indiciamento e outro, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) ainda tirou do banqueiro, dono do banco Opportunity, o controle desta e de outras teles, que passou às mãos dos demais sócios - investidores brasileiros e estrangeiros (representados pelo Citigroup), por meio de manobras societárias.

O depoimento na PF começou às 10h da manhã, mas Dantas chegou à sede da Polícia Federal duas horas antes. Ele entrou caminhando pela entrada dos fundos, na Avenida Venezuela, Zona Portuária do Rio. Além do delegado, que não quis ter o nome revelado por integrar o serviço de inteligência da PF, estiveram presentes uma escrivã e os advogados Antônio Carlos de Almeida Castro, Nélio Machado e José Luiz de Oliveira Lima.

O depoimento durou duas horas e meia. Dantas deu respostas negativas a todas as perguntas feitas sobre seu envolvimento no caso, que investiga um esquema de espionagem que atingiu até mesmo e-mails do secretário de Comunicação do Governo, Luiz Gushiken, e o ex-presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb.

Antes unidos no controle da Brasil Telecom, Dantas e a Telecom Italia iniciaram uma disputa quando os italianos tentaram retomar seu espaço na gestão da empresa, após terem se afastado para poder iniciar as operações da TIM no serviço de telefonia móvel, como exige a lei brasileira.

No fim, alegando temer pela integridade de Dantas, os advogados pediram que a PF permitisse que o banqueiro saísse direto do estacionamento, em um carro particular. O objetivo era evitar o corpo-a-corpo com os jornalistas, que esperavam sua saída. Assim, despistando os repórteres, Dantas saiu da PF em um carro de médio porte com vidros escurecidos por película.

Ao fim do depoimento, Nélio Machado disse que mantinha sua avaliação sobre a condução do inquérito, de que os indiciamentos eram arbitrários. E que esperava que o delegado revisse a decisão.

- Há uma inconsistência absoluta em relação a essa apuração - sustenta.

A PF, no entanto, nega que tenha interesse em prejudicar Dantas e Cicco. Fontes da instituição explicam que a convocação de ambos para depor somente cinco meses após o início das investigações é uma ''estratégia de investigação usada no mundo inteiro'', em que primeiro são levantados os indícios para, só depois, se ouvirem os envolvidos.

- Se fosse o contrário, eles iam acabar sendo ouvidos duas vezes - alega a fonte.

A PF também rebate outra crítica de Machado, contra o anúncio do indiciamento antes mesmo dos depoimentos.

- A operação Chacal, que deu início à investigação, foi deflagrada com autorização da Justiça, que entendeu que os indícios eram fortes. E a perícia do material apreendido só reforçou as suspeitas.