Título: Vida de fé e provações
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 03/04/2005, Especial, p. A7

A trajetória do intelectual tímido que venceu obstáculos dentro e fora da Igreja

Nada de pai, mãe e irmãos reunidos aos domingos para ir à missa. Os primeiros 18 anos de quem viria a se tornar o terceiro papa com mais tempo no Vaticano foram marcados por perdas e solidão. Órfão desde cedo, o polonês Karol Wojtyla buscou força nos palcos. Sua grande paixão na adolescência foi o teatro. Enquanto seus amigos da companhia, entre uma e outra apresentação, namoravam e saiam à noite, Wojtyla preferia ficar em casa, rodeado por livros de filosofia e literatura.

Intelectual reservado, quase tímido, de rosto macilento e olhar ao mesmo tempo doce e inquieto, o futuro papa freqüentou as aulas de filologia polonesa na Universidade Jagiellonian. O estudo foi interrompido pelos anos de exército. Por pouco, Wojtyla não foi lutar nos campos de batalha. Apenas dois dias antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial, terminou sua formação militar. Sua participação no confronto foi por outras vias.

No início dos anos 40, o jovem polonês aderiu à UNIA - organização clandestina cristã e patriótica que mantinha laços estreitos com a resistência armada. Totalmente envolvido em atividades culturais, cujo objetivo era preservar a juventude do vírus do ódio, Wojtyla é pego de surpresa com a morte do pai. É justamente nesse momento que percebe sua vocação religiosa.

''Após a morte do meu pai, fui aos poucos tomando consciência do meu verdadeiro caminho. No ano seguinte, sabia que havia sido chamado'', conta em sua biografia, escrita pelo jornalista Bernard Lecomte. A partir daí, o jovem órfão - sua mãe morreu quando era criança - deu nova direção à veia artística para um único palco: o altar. Numa Polônia abalada pelo nazismo e comunismo, o santo padre, ousadamente, pregava a construção de um novo mundo para os jovens.

E sua vida de seminarista não poderia ter começado de maneira mais inusitada. Aquele que nos tempos do teatro, segundo consta em sua biografia, dizia a seus amigos - ''Eu, padre? Está brincando! Vou ser contratado pelo teatro Slowacki!'' -, em 1942, iria parar num seminário clandestino de Sapieha. Os obstáculos só aumentaram sua fé. Em plena guerra, os obstáculos só aumentaram sua fé. Em meio a cinzas e ao holocausto, fortaleceu-se a luz de João Paulo II.

Foi com essa filosofia que se tornou papa em 1978, com 58 anos. Seus 26 anos de pontificado foram marcados pela ousadia. O santo padre ultrapassou os limites da sacristia e atuou com vigor de ator político. Principalmente na década de 80, no período do fim do comunismo. A chegada de Mikhail Gorbachev ao poder na União Soviética, em 1985, não despertou esperanças no Vaticano. ''Como poderia Gorbachev mudar de sistema sem mudar o sistema'', questionou, na época, o papa.

Não por menos ficou conhecido como o papa que derrubou o comunismo. Sem contar seu apoio ao sindicato da Solidariedade contra o regime comunista do general Jaruzelski, sua visita e orações diante do Muro das Lamentações e a audiência com Fidel Castro, quando disparou, em plena Praça da Revolução: ''Que Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba''. Na ocasião, aproveitou para condenar o ateísmo e o capitalismo.

Outro epíteto atribuído ao papa é o de ''atleta de Deus''. Além de, na juventude, ter participado de muitas partidas de futebol e braçadas na piscina, no pontificado, com um fôlego olímpico, realizou mais de cem viagens, inclusive ao mundo muçulmano. De sua primeira viagem, como papa, ao México, em 1979, a seus deslocamentos mais recentes, as inúmeras turnês obedecem a uma estratégia global.

É difícil analisar as viagens de João Paulo II separadamente de suas ações: as aglomerações espetaculares (como as Jornadas Mundiais da Juventude), as cartas às grandes instituições internacionais, as audiências concedidas a centenas de chefes de Estado, os sínodos continentais ou regionais, as beatificações e canonizações que marcam seus encontros com os povos. Ao estender a ação apostólica por todo o mundo, João Paulo II terá sido o papa da ''globalização'' de um pontificado marcado pelas preocupações com a humanidade.

No Brasil, duas cenas ainda estão no imaginário social: João Paulo II ajoelhado, beijando o chão, ao pousar no aeroporto do Rio de Janeiro, e o Maracanã lotado de fiéis para assistir à celebração.

Nessa trajetória ousada, em que a luta pela paz e pelos direitos humanos se combinou com a condução da Igreja Católica a posições mais conservadoras, nem todos os momentos foram de graça. Em 13 de maio de 1981, foi vítima do atentado do turco Mehmet Ali Agca. A bala atravessou o corpo do papa, ferindo-o no ventre. O tiro o deixou entre a vida e a morte durante dias. O fato acabou servindo como mais munição para a sua fé e demarcou os passos futuros do seu papado: ''Tudo aquilo foi um testemunho da graça divina. Agca sabia disparar bem, e disparou certamente para me eliminar. Mas foi como se alguém tivesse guiado e desviado aquela bala'', escreveu em seu livro Memória e identidade.

Recentemente, em entrevista publicado no jornal italiano La Repubblica, Agca acusou: sem a ajuda de padres e de cardeais, não teria realizado o atentado. E completou: ''O demônio está dentro do Vaticano''. Declarações polêmicas e, por enquanto, infundadas não abalaram em momento algum as convicções do santo padre. No Natal de 1983, João Paulo II foi à prisão visitar o assassino profissional, como o denominava. Do encontro, levou uma púnica certeza: ''Sei que não sou obra do acaso'', afirmou, com sua voz já trêmula, devido à doença, porém firme.