O Globo, n.31.627, 10/03/2020. Economia. p.17

Risco maior de recessão
João Sorima Neto 

 

Mercados acionários de todo o mundo sofreram ontem perdas históricas na esteirade uma disputa entre Arábia Saudita e Rússia sobre os preços do petróleo —o que se somou à turbulência causada pela epidemia de coronavírus. Os dois fatores, para analistas, formam uma tempestade perfeita que aumenta o risco de uma recessão. Várias Bolsas amargaram as maiores quedas desde 2008, quando eclodiu a crise financeira global. Já o Ibovespa, principal índice da B3, desabou 12,17%, o maior desde setembro de 1998, na crise russa. O indicador caiu aos 86.067 pontos. Desde 23 de janeiro, quando o Ibovespa atingiu a máxima histórica de 119.527 pontos, a desvalorização acumulada é de 38,8%. Somente ontem, as empresas com ações negociadas na Bolsa brasileira perderam R$ 432 bilhões de valor de mercado, segundo a Economática.

Mesmo com o Banco Central vendendo US$ 3,5 bilhões das reservas internacionais, a cotação do dólar comercial subiu 2,03% a R$ 4,728, novo recorde histórico. Durante o dia, a moeda americana chegou a atingir R$ 4,79. O BC já anunciou que irá vender hoje mais US$ 2 bilhões.

Diante da forte volatilidade, o Tesouro Nacional cancelou o leilão que faria na quinta-feira de títulos públicos prefixados.

NEGÓCIOS TRAVADOS

Às 10h31m, meia hora depois da abertura, quando o Ibovespa caía 10,02%, a Bolsa acionou o mecanismo de circuit breaker, que trava os negócios por 30 minutos sempre que as quedas ultrapassam 10%. O mecanismo não era acionado desde 18 de maio de 2017, um dia após o colunista do GLOBO Lauro Jardim revelar áudios do empresário Joesley Batista que comprometiam o então presidente Michel Temer.

Todas as ações do Ibovespa fecharam no vermelho. Os papéis da Petrobras, por exemplo, perderam 29,7%.

O pânico dos investidores se refletiu no chamado risco país, medido pelos contratos de credit default swap (CDS), uma espécie de seguro contra calotes dos governos. O CDS subiu 30% e chegou a 186 pontos, retornando ao patamar de dezembro de 2018. Foi a maior alta desde 22 de outubro de 2008, na crise financeira global, quando houve um salto de 49,8%.

Nos Estados Unidos, as principais Bolsas também acionaram o circuit breaker quando a queda do índice S&P 500 superou os 7%, logo após a abertura do pregão. Os negócios ficaram suspensos por 15 minutos. Os principais índices americanos fecharam em queda de mais de 7%, no pior dia desde 2008.

Foi a primeira vez que os negócios em Wall Street foram interrompidos desde as eleições presidenciais de 2016.

As quedas também foram fortes na Ásia e na Europa. A Bolsas da Austrália (-7,33%) e de Paris (-8,39%) também registraram suas maiores perdas desde a crise de 2008, enquanto a de Frankfurt (-7,94%) teve seu pior dia desde o 11 de Setembro.

Para o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, a disputa entre Arábia Saudita e Rússia piorou o que já era grave:

— Os mercados já estavam tensos com a falta de informações sobre os impactos do coronavírus. A guerra do petróleo é um choque dentro de outro choque, agravando o nervosismo dos mercados — disse Padovani, que observa que o grande temor dos investidores são as consequências que a epidemia pode trazer aos outros dois motores do crescimento mundial, além da China, que são os Estados Unidos e a Europa.

INCERTEZA CORROSIVA

Em relatório a clientes, Joachim Fels, assessor econômico global da gestora Pimco, afirmou ver possibilidade de uma recessão nos EUA ena Europa neste semestre. O Japão, segundo ele, já estaria em recessão. “Em nossa opinião, o pior para a economia ainda está por vir”, escreveu Fels.

Para Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs, em Nova York, a incerteza “é pior do que o risco”:

—É um cenário muito sério. Embora os governos se esforcem em conter o avanço do coronavírus, inclusive como desenvolvimento de uma vacina, haverá um impacto muito grande, e caminhamos a passos largos para uma recessão global. E agora, haverá queda da demanda e aumento da oferta do petróleo. Um novo viés negativo para o mercado.

A cotação do petróleo tipo Brent chegou a desabar mais de 30% na noite de domingo, depois de a Arábia Saudita anunciar que cortaria seus preços em mais de 10% eque elevaria a produção em abril.

O pano de fundo foi uma disputa coma Rússia no âmbito da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). O cartel tentava há semanas costurar um acordo parar eduzira produção, devido à queda na demanda por causa do coronavírus, que derrubou a indústria chinesa.

Mas, em um reunião no fim de semana, a Rússia decidiu não cooperar coma Opep para reduzira produção e, consequentemente, elevar os preços. Em represália, a Arábia Saudita decidiu cortar preços e produzir mais.

A Rússia ontem afirmou que temcap acidade de aguentar os preços baixos por cerca de dez anos, graças aseu fundo soberano de US $150 bilhões. Para analistas, o verdadeiro alvo da briga era a produção de shalegas (petróleo não convencional) nos EUA, que pode não ser lucrativa com o barril em torno de US$ 30.

O analista do Citigroup Ed Morse aval iaque o barril pode caira US $20, pois, pela primeira vez, um aumento da oferta ocorre junto com uma queda na demanda.

Em relatório, a agência de classificação de risco Fitch Ratings afirma que “os efeitos do choque do petróleo podem durar muito mais do que aqueles do coronavírus”. O banco Goldman Sachs cortou a previsão para o preço do barril do Brent no segundo e terceiro trimestres para US$ 30 .

O analista Ilan Arbteman, da Ativa Investimentos, porém, não vê mudança nos fundamentos das empresas petrolíferas. Mas ressalta que o consumidor não deve esperar que a Petrobras repasse aqueda de preços ao mercado interno.