Título: Falha revive medo de pandemia
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Fonte: Jornal do Brasil, 14/04/2005, Ciência, p. A12

Empresa americana enviou, por engano, a 18 países, variação do vírus que matou até 4 milhões de pessoas em 1957

GENEBRA - Amostras de uma variação potencialmente mortal do vírus da gripe asiática foram enviadas por uma empresa americana a cerca de 3.700 laboratórios em 18 países, entre eles o Brasil, em kits de teste de rotina. O incidente levou especialistas a alertar sobre o risco, ainda que pequeno, de que um acidente desencadeie uma pandemia mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta pedindo que o material seja destruído.

Klaus Stohr, que coordena o programa global de gripe da OMS, considerou ''imprudente'' o envio do vírus H2N2 - que matou entre 1 milhão e 4 milhões de pessoas no fim da década de 50 - aos laboratórios.

A empresa americana Meridian Bioscience, que enviou as amostras, negou ter violado qualquer regra e alegou que estava trabalhando para a Associação de Patologistas Americanos (CAP, em inglês).

''Tais amostras são usadas por laboratórios profissionais, acostumados a lidar com agentes virais. A empresa tem uma longa história de suprimento de amostras à associação e acredita que estava e está de acordo com todos os regulamentos aplicáveis'', explicou a empresa em nota.

Mas, assim como a OMS, a associação de patologistas também emitiu instruções para que o material seja destruído - em um ou dois dias e por meio de incineração ou produtos químicos - e explicou que a distribuição foi claramente um engano.

- Nós, em nenhuma circunstância, daríamos o aval para o envio do H2N2 - afirmou Jared Schwartz, porta-voz da CPA.

Schwartz disse que o histórico indica que a empresa sabia que se tratava de um vírus da gripe, mas aparentemente não se deu conta de que era o da gripe asiática.

Não há qualquer informação de que alguém tenha sido infectado, mas, segundo Stohr, ''se uma pessoa for contaminada, o risco de que sofra de uma enfermidade severa é grande e o vírus já mostrou ser altamente transmissível''.

A OMS advertiu em um comunicado que as pessoas nascidas depois de 1968, quando o vírus desapareceu, não são imunes ao H2N2 ou têm apenas uma imunidade limitada, já que o material não está presente nas atuais vacinas de gripe.

As amostras foram distribuídas, principalmente nos Estados Unidos, desde outubro de 2004, mas só no mês passado um laboratório canadense detectou que se tratava do vírus H2N2.

Maria Cheng, porta-voz da OMS, explicou que 90% dos laboratórios envolvidos estão na América do Norte, enquanto outros 61 estão distribuídos ao redor do mundo.

- O problema não é necessariamente que o tenham feito, mas que enviaram as mostras e as pessoas não sabiam do que se tratava - afirmou Cheng.

Os laboratórios com frequência recebem vírus para que possam testar a capacidade de detectar suas variações e, assim, receber certificados. Por isso, segundo Stohr, estão acostumados a manejar este tipo de material, o que diminui o risco.

- A ameaça é real, mas pequena. Não deve gerar pânico - afirmou Stohr.

As notícias sobre o incidente geraram preocupação, principalmente nos EUA, onde foram distribuídas o maior número de amostras. As autoridades americanas e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Atlanta (EUA) já estão investigando o caso.

- Este é um tema de alta prioridade para o governo - afirmou o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan.

Além de no Brasil e nos EUA, o material também foi distribuído na Alemanha, na Arábia Saudita, em Bermudas, na Bélgica, no Canadá, no Chile, em Cingapura, na Coréia do Sul, na França, em Hong Kong, em Israel, na Itália, no Japão, no Líbano, no México e em Taiwan