Título: Ratzinger está em vantagem
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Fonte: Jornal do Brasil, 14/04/2005, Internacional, p. A7
Jornais italianos afirmam que cardeal alemão já teria entre 40 e 50 votos no conclave. Angelo Sodano vem em segundo VATICANO - A quatro dias do início do conclave, duas pessoas próximas a João Paulo II - o cardeal alemão Joseph Ratzinger, ex-guardião da ortodoxia vaticana, e o ex-secretário de Estado, o italiano Angelo Sodano - surgem como favoritos para sucessão do papa. Apesar da proibição expressa de divulgar o que ocorre nas reuniões diárias, prévias ao conclave - na prática ele já estaria acontecendo, porém informalmente -, a imprensa italiana divulgou ontem vários pontos das discussões internas do Vaticano.
- A situação é ainda um pouco confusa, escreveu o jornal La Repubblica. - com base na informação de um cardeal. Segundo a fonte, o colegiado começou a discutir sobre os ''grandes temas de base para delinear'' o perfil do próximo pontífice.
Ainda de acordo com o informante do jornal, esta fase seria para a formação da primeira rodada de votação, que costuma ser uma formalidade para concentrar as forças dos diferentes campos. Os nomes que aparecem neste momento podem não ser os confirmados no trono de São Pedro, já que as votações duram dias e costumam produzir surpresas.
''De qualquer maneira, os simpatizantes do alemão intensificaram os esforços para elegê-lo rapidamente'', concluiu o La Repubblica.
- Ratzinger parece forte, mas ainda está muito longe de ficar claro quem surgirá e como será a votação - confirmou uma autoridade vaticana, sob anonimato.
Joseph Ratzinger, o ideólogo do pontificado de João Paulo II, poderia ter entre 40 e 50 votos, enquanto Sodano, o diplomata do Vaticano, contaria com 30 numa primeira votação, a partir da tarde de segunda-feira. ''Poucos, mas significativos votos'', informou o jornal Il Tempo, tendo em conta que são necessários 77 votos para eleger o papa, ou dois terços mais um dos 115 cardeais no conclave.
Mesmo beirando os 80 anos - completa 78 no sábado - o alemão viu as chances crescerem após ler a homilia no funeral de sexta-feira, considerada muito ''humana''. Apesar de ter sido ideólogo da fé vaticana e um de seus mais próximos colaboradores, Sodano, um conservador moderado de 77 anos, foi o braço direito do pontífice desde 1991 e a pessoa que esteve à frente da máquina vaticana durante a longa doença do papa.
Segundo o Il Tempo, Ratzinger contaria com o apoio dos cardeais próximos a João Paulo II, desde o presidente da Conferência Episcopal italiana, Camillo Ruini - outro da ala conservadora -, o austríaco Christoph Schönborn ou o italiano Angelo Scola, o patriarca de Veneza, próximo ao Opus Dei. Sodano teria parte da Cúria e pesos pesados, como o belga Godfried Danneels, parte dos africanos, europeus e alguns sul-americanos.
Como terceira opção, vem o arcebispo de Milão, Dionigi Tettamanzi, de 71 anos, que representa uma igreja mais progressista e aberta, além de contar com o apoio dos compatriotas. Outro com respaldo dos moderados é o italiano Carlo Maria Martini, ex-arcebispo de Milão. Mas o cardeal, que tem 78 anos e está doente, já disse que não quer o posto.
Nas bolsas de apostas, a tendência é variada. Na britânica Pinnacle Sports, Sodano ontem era o preferido, com o alemão em quarto. Na Paddy Power, para cada libra apostada em Ratzinger, o vencedor recebe cinco, contra 16/1 de Tettamanzi, o que significa que os apostadores acreditam na influência do presidente da congregação da Doutrina da Fé. Já Sodano paga 33 libras para cada unidade apostada.
O favoritismo de Ratzinger e Sodano também pode ser reforçado pela posição próxima, de ambos, à ultraconservadora Opus Dei, elevada a prelatura pessoal pelo próprio pontífice. A organização expressou o interesse e pediu, indiretamente, a continuidade do papado.
- Desde já, queremos com toda a alma que o sucessor de João Paulo II, seja quem for, seja um novo capítulo na continuidade firme da Igreja - afirmou, em carta aos seus integrantes o atual prelado da Opus Dei, Javier Echevarria.
Analistas dizem que o grupo não aposta em um só nome:
- A Opus Dei é inteligente. Se ficar visível demais pode ser ruim para o candidato e para o movimento - avalia o vaticanista americano John Allen.