Título: Maturidade
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 12/04/2005, Opinião, p. A10

Mais do que um símbolo da trégua entre dois lados claramente divergentes do governo Lula, o documento aprovado pelo campo majoritário do PT no encontro de sábado, no Rio, tem um significado histórico para o partido, com extraordinárias conseqüências para o futuro da política brasileira. O texto ''Bases de um projeto para o Brasil'', afinal, é o primeiro passo para uma urgente e necessária atualização do programa petista. Com o mérito de conter a impressão digital dos arautos dos dois grupos antagônicos hoje no poder: o chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O resultado é notável, ainda que balizado por trechos parcialmente contraditórios, encaixados lado a lado para acomodar as visões dos dois grupos. Revela, contudo, um partido capaz de iniciar, de fato, o processo de formalização das mudanças em curso desde que chegou ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2003. De lá para cá, a prática desmontou teses, envelheceu outras, enterrou dogmas aparentemente eternos para os petistas.

Das duras lições aprendidas nos dois anos de poder, o PT se deparou com um dos maiores dilemas dos 25 anos de existência: a tumultuada convivência, sob a mesma bandeira, das crenças utópicas que marcaram os tempos de oposição e a prática de governo sublinhada pelo pragmatismo. Uma união profundamente instável, suficiente para abrir fraturas indissipáveis. Faltava, portanto, a revisão do programa, iniciada com o documento de sábado. Nele, torna-se oficial a disposição da cúpula do PT de trocar as fantasias do passado - que insones assombrados continuam a chamar de ''ruptura'' - pela responsabilidade do presente, simbolizada pela incorporação de temas como equilíbrio fiscal.

Numa das 44 páginas, o documento refere-se ao equilíbrio orçamentário e fiscal como um ''alicerce da existência de uma moeda nacional com um mínimo de credibilidade''. Afirma ainda que as recentes ''mudanças no mundo'' não permitem mais o retorno às práticas ''excessivamente intervencionistas'' dos anos 50, 60 e 70. A defesa com todas as letras do equilíbrio fiscal e a proposta de que tal valor se incorpore em definitivo ao programa do partido evidenciam substancial mudança rumo a uma política movida por idéias e práticas sensatas. Trata-se de um passo tão relevante quanto a Carta ao Povo Brasileiro que, na campanha presidencial de 2002, pregou pela primeira vez nas hostes petistas o superávit primário e o cumprimento dos contratos, freando as fantasias vendidas no Encontro Nacional do partido, realizado no ano anterior, cujo documento intitulava-se ''A ruptura necessária''.

Se prosseguir no passo firme da formalização das mudanças, adequando-se aos novos tempos, o PT se libertará de retóricas e restrições inócuas. Também permitirá que eleitores e filiados entendam o que o partido propõe e deseja. A legenda, enfim, não mais poderá ser acusada de trair as idéias do passado ou renegar o petismo. Ao contrário, se revitalizará para o futuro. É um caminho inevitável para praticamente todos os partidos que chegam ao poder, sobretudo os originários da esquerda. Há casos similares, como os trabalhistas ingleses e os socialistas espanhóis, que se mostraram corajosos para modernizar um programa que envelhecia e abriram caminho para grandes transformações nos dois países. Revisões desse tipo são especialmente bem-vindas no Brasil, cujo presidencialismo de feições parlamentaristas requer equilíbrio e maturidade dos inquilinos do poder.