Título: Carla Cicco é indiciada
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 12/04/2005, Economia & Negócios, p. A17
Polícia Federal acusa presidente da Brasil Telecom de formação de quadrilha e espionagem usando a Kroll Associates
A presidente da Brasil Telecom, Carla Cicco, foi indiciada pela Polícia Federal pelos crimes de formação de quadrilha e divulgação de segredo. Juntos, estes dois crimes podem render à empresária até sete anos de cadeia, caso seja condenada pela Justiça Federal. Carla e o dono do Banco Opportunity, Daniel Dantas, são apontados pela PF como os líderes de uma organização criminosa que utilizou a Kroll Associates para espionar ilegalmente os desafetos do banqueiro no Brasil.
Daniel Dantas será intimado para depor hoje e os advogados do banqueiro já acertaram o depoimento para amanhã, no Rio, segundo fontes da PF. Dantas também deverá ser indiciado por formação de quadrilha ao prestar depoimento.
Carla Cicco entrou sorridente na sede da Polícia Federal, em Brasília, acompanhada de seus advogados. Antes de começar o depoimento, ela foi informada de seu indiciamento. Ao sair da sede da PF, às 13 horas, Cicco estava visivelmente abatida e em silêncio. Ao todo, cinco advogados e dois funcionários da Brasil Telecom acompanharam Carla no depoimento, inclusive Luiz Otávio da Motta Veiga, presidente do conselho da companhia telefônica.
Cicco limitou-se a confirmar seu indiciamento e recusou-se a dar explicações sobre seu envolvimento com a espionagem ilegal. Ela negou-se também a dar respostas sobre relatórios que ela encomendava à Kroll Associates. Estes documentos contêm quebras de sigilo, inclusive do então presidente do Banco do Brasil no governo do PT, Cássio Casseb.
Carla Cicco não teria trazido informações novas para o inquérito, que contribuíssem para elucidar o esquema de bisbilhotagem que montou com o banqueiro Daniel Dantas. Segundo fontes da PF, Carla não conseguiu derrubar as provas sobre seu envolvimento com a quadrilha de espionagem, que acabou violando os sigilos bancário, telefônico e fiscal de desafetos de Dantas.
O advogado Luiz Carlos de Almeida Castro - que agora defende também o ministro da Previdência, Romero Jucá - afirmou que o depoimento de Carla Cicco foi ''tranqüilo''. Ele negou-se a dar detalhes do depoimento. O advogado afirmou que a estratégia do Opportunity e dos advogados é a de esperar os próximos passos da investigação.
- Combinamos não falar nada até Daniel Dantas depor, depois de amanhã - afirmou.
Segundo fontes da PF, Cicco respondeu a todas as perguntas. ''Ela falou muito e disse pouco'', resumiu uma fonte da corporação. A PF já não esperava grandes revelações no depoimento. Para os delegados que investigam o caso, o depoimento acabou sendo uma simples formalidade.
Relatório de investigação da Divisão de Inteligência Policial da PF mostra que Carla Cicco e Daniel Dantas financiaram uma espécie de serviço de inteligência ''paralelo''. O banqueiro e a presidente da Brasil Telecom tiveram reunião na sede do Opportunity no Rio de Janeiro com os espiões da Kroll, entre eles Charles Carr, Omer Erginsoy e William Goodall, o ''Bill''.
Nas várias gravações que a PF fez da quadrilha, o nome de Carla Cicco aparece diversas vezes. A presidente da Brasil Telecom era chamada de ''CC'' pelos espiões. Depois que a PF deflagrou a Operação Chacal, no final do ano passado, prendendo os funcionários da Kroll no Brasil, a quadrilha recorreu a novas formas de espionagem. Na sexta-feira passada, a PF fechou novo escritório de espionagem utilizado pelo Opportunity, a empresa do israelense Avner Shemesh, em São Paulo. Segundo a PF, o sócio, ex-cunhado e braço direito de Dantas, o banqueiro Carlos Rodemburg, teria recorrido aos serviços de Shemesh.