O Globo, n.31.588, 31/01/2020. Economia. p.28

Guedes: Legislativo dará o ritmo das reformas
João Sorima Neto 


 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse ontem que o governo deve encaminhar à Câmara dos Deputados o projeto de reforma administrativa, que mexe com as regras do funcionalismo, em até duas semanas. No entanto, indicou que vai deixar para o Congresso definir que prioridade ela terá na pauta do Legislativo, que já discute a reforma tributária. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, rebateu dizendo que a responsabilidade pela aprovação das reformas não é só do Parlamento.

—O presidente Jair Bolsonaro vai mandar a reforma administrativa atendendo a pedido do presidente Rodrigo Maia —disse Guedes, em evento sobre a agenda econômica de 2020, em São Paulo.

— Qual reforma vai passar primeiro? Confio na classe política.

‘SACO DE DINHEIRO’

Na segunda-feira, em viagem à Índia, Bolsonaro disse que a reforma administrativa sairá “em breve” e que quer evitar “guerra de informação”. Guedes disse que a proposta será encaminhada com “restrições políticas”, uma vez que o governo não pode mexer em direitos dos atuais servidores:

—A nós cabe encaminhar e o Congresso vai dizer o ritmo em que isso será feito. A classe política vai tomar o ritmo da economia. Aqui (no Brasil), o ministro da Economia anda com o saco de dinheiro e todo mundo correndo atrás dele. Mas o dinheiro não é dele.

No debate, em tom de ironia, o ministro também disse que nunca viu um país “ir para o saco” de forma tão organizada, em referência à situação fiscal que encontrou ao assumir o ministério.

No mesmo evento, Maia falou logo após a saída de Guedes. O presidente da Câmara disse que o Congresso tem condições de aprovar as duas reformas este ano, mas que a tributária pode ser votada até abril, antes da administrativa.

—O fato é que a administrativa ainda não chegou. Quando chegar, vamos dar celeridade — disse.

— É (um projeto) ambicioso, mas a classe política compreendeu que comprometeu um gasto alto demais com salário de servidores.

Maia disse que é preciso organizar a narrativa entre Executivo e Legislativo para cada um ficar “com sua responsabilidade” no tema das reformas.

— É preciso tomar cuidado com esse negócio de dizer que a reforma administrativa atrasou porque nós votamos o segundo turno (da Previdência) após o recesso. Não é verdade. Votamos logo no início, e o governo poderia ter mandado a reforma administrativa em setembro. É preciso tomar cuidado para que tudo não fique nas costas do Congresso.

Maia afirmou que o próprio governo criou dificuldades na relação com o Congresso que atrasaram a reforma da Previdência:

— Boa parte do atraso foi responsabilidade do governo, dos conflitos permanentes que tivemos com o presidente. Graças a Deus hoje a relação é muito boa.