Título: Muita viagem e pouco trabalho
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Fonte: Jornal do Brasil, 10/04/2005, Sete Dias, p. A16

Ecumenismo acima das nuvens: só Mãe Nitinha perdeu o Pai-Nosso rezado pela comitiva de Lula Com o Brasil ninguém pode, confirmou a cerimônia do adeus ao papa. Nem os Estados Unidos. A única superpotência do planeta mandou cinco representantes: o presidente George W. Bush e sua mulher, os ex-presidentes Bush pai e Bill Clinton e a secretária de Estado, Condoleezza Rice. Quanto mais rico o país, mais sovina ele é, talvez tenham deduzido os mandarins do Planalto. Melhor ser pobre sem medo de gastar em evento tão importante. O fato é que se decidiu enviar a Roma a maior, mais abrangente, mais ecumênica e mais extravagante entre as comitivas presentes ao funeral.

Embarcaram no Aerolula 16 passageiros - uma geléia geral de políticos e religiosos. Lula cuidou pessoalmente da escolha dos companheiros de viagem. A mistura produziu uma espécie de retrato em 3x4 de uma democracia na maturidade, que estimula o convívio dos contrários e abriga com tolerância qualquer religião. Marisa Letícia foi a escolha óbvia. A primeira-dama que não perde o marido de vista simboliza o apreço nacional pela instituição da família.

Para demonstrar a harmonia entre os três Poderes da República, embarcaram os presidentes da Câmara, Severino Cavalcanti, do Senado, Renan Calheiros, e do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim. Aos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney cabia outra missão.

Ambos subiram a bordo do Aerolula para avisar ao mundo que, no Brasil moderno, não existem ressentimentos entre adversários políticos, sobretudo quando se trata de ex-presidentes. Lula esqueceu de convidar um ex-muito vivo, Fernando Collor. Mas Itamar Franco, o vice que substituiu o defenestrado, esperava a comitiva no aeroporto em Roma. Itamar agora é embaixador na Itália.

Para manter sob vigilância o pouco diplomático Itamar, incorporou-se à comitiva o chanceler Celso Amorim. Se eventuais chiliques exigissem socorro, bastaria chamar o tranqüilo Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula, ou Aloizio Mercadante, líder do governo no Senado. A face multirreligiosa ficou por conta de seis passageiros. Seriam sete, se os orixás tivessem sido mais clementes.

Ficou faltando Areonilthes Conceição Chagas, ou Nitinha de Oxum, mãe-de-santo bastante conhecida e muito respeitada nos terreiros de candomblé. A mãe-de-santo perdeu a hora da decolagem. A escala do avião presidencial no Recife foi prolongada por 30 minutos, para esperar a grande ausente. Nitinha de Oxum atrasou-se de novo. Não conseguiu conhecer os confortos do Aerolula.

É um perigo expor-se à contrariedade de mães-de-santo tão poderosas. Aborrecidas, podem incorporar um Exu da pesada e esculhambar qualquer solenidade. Até enterro de papa. Mas Nitinha de Oxum ficou feliz com as atenções que o governo lhe dispensara. Só lamentou não ter podido rezar o Pai-Nosso acima das nuvens, em coro com os políticos e seis religiosos: o presidente da CNBB, um padre que o assessora, o arcebispo de Brasília, um rabino, um representante do islamismo e um pastor luterano.

A maioria da comitiva voltou de Roma no "Sucatinha", um Boeing de segunda divisão. Dois aviões, 16 passageiros, fora os tripulantes. Tudo pago pelos contribuintes, certo. Mas como permitir que a maior nação católica do mundo fizesse feio justamente no enterro do nosso João de Deus?

Satisfeito com a performance, Lula decolou no seu brinquedão para outra visita à Africa. Vai tornar ainda mais impressionante a milhagem acumulada desde a posse, capaz de espantar um João Paulo II. Em 15 de março, quando Lula completou 777 dias na Presidência, o jornalista Joelmir Betting fez as contas. Em 25 meses, o presidente fez 62 viagens ao exterior (ausentando-se do país por 115 dias) e 177 pelo Brasil, que o mantiveram longe de Brasília durante 335 dias. Sobraram para a capital apenas 327 dias, incluídos sábados e domingos. É muito aeroporto, muita nuvem. E pouco trabalho.