Título: Exportação de emprego e renda
Autor: Rafael Rosas
Fonte: Jornal do Brasil, 10/04/2005, Economia & Negócios, p. A17
Falta de acordos com Estados Unidos e União Européia faz Brasil perder até US$ 7 bi por ano e 700 mil postos de trabalho
A falta de consenso para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a inexistência de acordos bilaterais entre Mercosul e União Européia fazem o Brasil perder até US$ 7 bilhões em exportações por ano, o que significa entre 500 mil e 700 mil empregos a menos no país. O cálculo é de Michel Alaby, presidente da Associação das Empresas Brasileiras pra Integração de Mercados (Adebin).
- Não vejo chances de o país fechar acordos amplos como a Alca e com a União Européia antes do fim da Rodada de Doha na OMC, que negociou subsídios agrícolas, em junho deste ano (Organização Mundial do Comércio) - ressalta Alaby.
Um dos setores mais sensíveis à falta de acordos é o têxtil. Os Estados Unidos, por exemplo, têm uma norma que determina que todos os produtos da cadeia têxtil que entram no país sem tarifas devem ter os seus fios de origem produzidos ou em território americano ou em uma nação com quem possuam acordo bilateral, o que não é o caso do Brasil, que paga 17% de taxas no setor.
A situação desfavorável para concorrer por mercado no país que individualmente é o maior comprador mundial de têxteis leva empresas nacionais como Coteminas e Vicunha a planejar a instalação de unidades em nações que têm acordo com os EUA, como México e Costa Rica, produzindo empregos em outros países. Os mexicanos são beneficiados por integrarem o Nafta, acordo que criou uma área de livre comércio entre EUA, Canadá e México, enquanto a América Central e o Caribe podem vir a se beneficiar do Cafta, ainda em negociação e que prevê a inclusão da região em uma área de livre comércio com o Nafta.
O superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confeccção (Abit), Fernando Pimentel, estima que EUA, UE e Japão correspondam a 85% das compras mundiais do setor e cobra uma posição compatível com os concorrentes.
- Temos qualidade de produção que nos habilitaria a concorrer de igual para igual, mas não temos acesso ao mercado da mesma forma que os concorrentes - diz.
O superintendente da Abit afirma ainda que a falta de acordos limita o crescimento da indústria que é a segunda maior empregadora do país e gerou 66 mil postos formais no ano passado. Pimentel defende maior agilidade na produção de acordos com os grandes mercados e faz uma comparação com o Chile:
- O Chile tem bons acordos e vende têxteis para 1,5 bilhão de pessoas, enquanto o Brasil, sem acordos, vende para apenas 250 milhões de pessoas. Estamos ficando para trás e isso significa menos emprego e menos renda - lamenta.
A economista Lúcia Maduro, da Unidade de Negócios Internacionais da Confederação Nacional da Indústria, afirma que o atraso nas negociações da Alca são mais nocivas que os problemas com a UE.
- Os Estados Unidos são mais importantes, pois tem uma pauta de importação de produtos brasileiros mais diversificada e de maior valor agregado, com mais manufaturados - pondera.
Para ela setores industriais com ''picos tarifários'' como têxtil, calçadista e siderúrgico tendem a ser os mais prejudicados na relação com os EUA.
O setor siderúrgico, inclusive, é mais um que encontra como saída a instalação de unidades fora do país. A Gerdau, por exemplo, possui 11 usinas nos EUA que contribuíram para o lucro líquido de R$ 896,3 milhões obtido na América do Norte no ano passado. A CSN é outra que possui unidades nos EUA e na UE.
- Por enquanto, o movimento de empresas para fora do Brasil ainda é setorizado, mas pode crescer no médio prazo - diz Lia Valls Pereira, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas.