Título: No rastro da segurança clandestina
Autor: Waleska Borges
Fonte: Jornal do Brasil, 10/04/2005, Rio, p. A24
Grupos de policiais que oferecem serviços de proteção a empresas e casas noturnas são investigados por suspeita de crimes na Baixada
A Corregedoria da Polícia Militar investiga um esquema de segurança clandestino que envolve policiais militares e até oficiais da corporação, ligados a grupos de extermínios na Baixada Fluminense. Os policiais, que nas horas de folga completam seus salários, atuariam na vigilância de casas de show, na Rodovia Presidente Dutra, e de estabelecimentos comerciais. Há suspeitas de que as mudanças em cinco comandos da Baixada tenha causado a insatisfação de maus policiais subordinados ao Comando de Policiamento da Baixada (CPB). O descontentamento pode estar por trás chacina de 30 pessoas, em Nova Iguaçu e Queimados. No Rio, o número de vigilantes clandestinos, segundo estimativa da Federação Estadual dos Vigilantes, chega a 150 mil. Os legalizados são 50 mil. Na Baixada, de acordo com cadastro da Polícia Federal, são apenas 33 as empresas autorizadas a prestar serviço de vigilância.
Pessoas ligadas às investigações do massacre denunciam que, com as mudanças nos batalhões de Caxias (15º), Mesquita (20º), Mesquita (21º), Magé (24º) e CPB, as empresas de segurança clandestinas têm perdido o poder na Baixada. Além dos policiais que atuam na folga, PMs fardados estariam perdendo o espaço no esquema de segurança das ruas.
¿ Alguns destes policiais fardados que prestam serviços para comerciantes, em troca de gratificações, estão sendo transferidos de ruas ou regiões ¿ contou uma pessoa ligada às investigações.
Nas casas de show, segundo fontes da Polícia Federal, os policiais trabalham sob a fachada de empresas de segurança. No entanto, de acordo com a Lei Federal 7.102, de 1983, o policial não pode atuar como vigiante. O comandante da Polícia Militar, coronel Hudson de Aguiar, lembra que, geralmente, não há vínculo empregatício entre os policiais e as empresas de segurança. O coronel disse ainda que as mudanças nos comandos dos batalhões atrapalham interesses particulares, entre eles a segurança privada ilegal.
¿ Se você vem ganhando um dinheiro e alguém mexe com você, isso atrapalha o seu negócio e há uma desordem ¿ avalia o comandante.
O coronel admite ainda a participação de oficiais no esquema de segurança clandestino. Ele lembra a participação de um capitão no assassinato de quatro jovens na saída da casa de uma espetáculos em dezembro de 2003, em São João de Meriti. Quatro dos nove policiais militares acusados do crime eram seguranças da casa de show. Três deles integram o 21º BPM (Vilar dos Teles) e o outro atua no Grupamento Especial Tático Móvel (Getam).
Mãe de Bruno Muniz Paulino, 20 anos, um dos rapazes assassinados pelos seguranças, Siley Muniz Paulino, 46, lamenta a morosidade da Justiça para punir os responsáveis pelo crime.
¿ Apesar de indiciados, eles (os policiais) estão presos administrativamente nos seus quartéis. Um dia desses, estava no metrô quando me deparei com um dos assassinos. Ele me olhou e se sentou no último banco do vagão ¿ emociona-se Siley.
A mãe do jovem assassinado lembra que, segundo testemunhas, um Gol da Polícia Militar participou do comboio que levou seu filho, os dois primos e o amigo para serem executados numa fazenda, em Duque de Caxias.
¿ Desde o dia da chacina, estou revivendo a dor de perder meu filho. Assim como os parentes das vítimas do massacre, meu filho não era bandido ¿ lamentou Siley.
A fiscalização das empresas de vigilância é feita pela Polícia Federal. No entanto, segundo revelam os policias, o número de funcionários para o controle das empresas legalizadas e a repressão das clandestinas é insuficiente. O deputado estadual Alessandro Molon (PT), membro da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, sugere que a ligação das empresas de segurança clandestinas com a chacina seja investigada pelo estado.
¿ A motivação do crime não está clara. É fundamental aprofundar as investigações para evitar novos casos ¿ disse Molon.
Prefeito de Nova Iguaçu, o petista Lindberg Farias acredita que há um esquema de policiais ligados a crimes na Baixada que deve ser desbaratado. ¿ A chacina não foi planejada apenas por um grupo de quatro ou cinco policiais malucos. Eles estavam se sentindo seguros. Há conexões com gente de peso da polícia que participou da articulação da chacina ¿ sugere Lindberg.
O deputado Paulo Melo (PMDB) acredita que a chacina não foi apenas uma represália à ação do comandante do 15º BPM, coronel Paulo Cesar Ferreira Lopes. ¿ O objetivo desta ação é muito maior do que podemos imaginar. A carrocinha prendeu os vira-latas, mas o importante é pegar o pastor alemão ¿ acusa Paulo Melo.