Título: Uma zona de exclusão aérea? Não.
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: Jornal do Brasil, 10/03/2011, Internacional, p. A10

Pressão para adotar medida aumenta, mas Ocidente vacila; se adotada, ela colocará Kadafi como líder anti-imperialista

Uma nevasca tardia de violência na Líbia está atrasando a primavera árabe e os rebeldes, desesperados com os ataques aéreos de Muamar Kadafi, bradam por ajuda. A pressão para ser criada uma zona de exclusão aérea vem aumentando. Mas o Ocidente vacila.

O argumento em defesa dessa zona foi bem formulado por Gareth Evans, ex-ministro do Exterior da Austrália e autor de The Responsibility to Protect: Ending Mass Atrocity Crimes Once and for All (Responsabilidade de proteger: um fim dos crimes em massa de uma vez por todas, em tradução livre).

Evans afirma que "a soberania de Estado não significa uma licença para matar. Nenhum Estado pode abdicar da responsabilidade de proteger seu povo de crimes contra a humanidade, muito menos justificar a prática desses crimes por ele próprio". O artigo relembra nossos fracassos humanitários na década de 90: Somália, Ruanda, Srebrenica, Kosovo - "ilegítimos porque não foram autorizados pela ONU".

O apelo de Evans para a criação de uma zona de exclusão aérea está sendo repetido por políticos mais agressivos nos EUA, como os senadores John McCain e Joe Lieberman, com os senadores John Kerry e Mitch McConnell indo na mesma direção. Mas o chefe do Pentágono, Robert Gates, vem defendendo a cautela e, perante o Congresso, afirmou que a zona de exclusão seria, no final das contas, um ato de guerra.

"Temos de deixar as coisas claras", disse o secretário da Defesa. "Uma zona de exclusão aérea tem de começar com um ataque à Líbia para destruir suas defesas aéreas. Aí, então, os aviões poderiam voar pelo país sem a preocupação de que podem ser abatidos. Mas é assim que as coisas começam." E alertou o Congresso de que mesmo uma zona de exclusão aérea significa "uma grande operação num grande país".

Gates opõe-se a grandes operações em países do terceiro mundo. Num discurso recente em West Point, ele disse aos novos cadetes que qualquer futuro secretário que recomendar uma nova guerra americana na Ásia ou na África "deve ter sua cabeça examinada". Afirmou que as Forças Armadas dos EUA não podem se "transformar numa polícia vitoriana para edificação de uma nação - destinada a perseguir guerrilheiros, fundar escolas ou bebericar chá". Para Gates, uma zona de exclusão aérea poderá ser o início de uma intervenção na Líbia.

Fantasma iraquiano. As lembranças da Guerra do Golfo, quando o presidente George H. Bush exortou o Iraque a se rebelar contra Saddam Hussein, não desapareceram. Os xiitas do sul do Iraque fizeram exatamente isso e foram massacrados porque os EUA não impuseram uma zona de exclusão aérea. Evitando cometer novamente o mesmo erro, Bush pai ordenou a criação de uma zona de exclusão ao norte do Iraque, quando os curdos estavam sendo trucidados.

Mas a segunda invasão do Iraque, no governo de George W. Bush, alardeada como uma intervenção humanitária quando nenhuma arma de destruição em massa foi encontrada no país, está mais presente na memória. Com uma outra guerra interminável no Afeganistão, o Exército dos Estados Unidos reluta em se envolver na Líbia.

A noção de que a comunidade internacional tem a responsabilidade de proteger uma população vem se consolidando nos últimos anos - adotada pelas Nações Unidas depois de uma década "em que o Norte global com frequência apoiou a intervenção humanitária, enquanto o Sul preferiu não interferir nos assuntos internos", como explica Evans.

Mas a doutrina da não interferência nos assuntos internos, que remonta à criação do Estado-nação, ainda é vigorosamente defendida por muitas nações do mundo, especialmente pela China. Com a Liga Árabe contra uma intervenção externa na Líbia, e com a Turquia, França e Rússia pouco entusiasmadas com essa alternativa, a zona de exclusão aérea pode não ser aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas ou pela Otan. Isso significa que fica para os americanos a decisão, que podem agir sozinhos, com apoio britânico.

Mais uma intervenção anglo-americana - mais uma de uma série que começou com o golpe contra Mohammed Mossadegh do Irã, em 1953 e se estendeu até a guerra do Iraque em 2003 - despertaria todas as suspeitas de que, novamente, os policiais do passado e do presente estão interferindo por causa do petróleo.

O instável e teatral Kadafi no mesmo instante surgiria no centro do palco como o herói contra as intrigas do Ocidente, colocando o presidente Obama no mesmo papel que o italiano Benito Mussolini teve na Líbia. Como afirmou o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, "o Oriente Médio e a África são vistos pelo Ocidente como fontes de petróleo e há décadas são usados como marionetes nas guerras por petróleo".

Por último, há o fator Al-Qaeda. Até agora, as revoltas árabes foram contrárias à narrativa da Al-Qaeda. O Ocidente, e particularmente os EUA, não foram a força propulsora dessas rebeliões, como também não foram os extremistas islâmicos. Essas rebeliões foram iniciadas pelos árabes, para os árabes.

Uma intervenção anglo-americana, especialmente sem uma autorização da ONU, ofuscaria consideravelmente essa mensagem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA