Título: Plano de zona de exclusão aérea perde força ante hesitação de Washington
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: Jornal do Brasil, 10/03/2011, Internacional, p. A10

Reunião de hoje em Bruxelas deve deixar em segundo plano proposta de intervenção militar para evitar que Kadafi utilize sua Força Aérea para atacar rebeldes que lhe fazem oposição; países da Otan darão prioridade às operações de assistência humanitária

A resistência dos EUA em abrir uma terceira frente de combate deverá impedir um acordo na Otan sobre a criação de uma zona de exclusão aérea na Líbia. Reunidos hoje em Bruxelas para tratar da crise líbia como prioridade, os membros da Otan deverão se ater ao envio de assistência humanitária.

Goran Tomasevic/ReutersCombate. Rebelde dispara granada propelida por foguete em estrada entre Ras Lanuf e Bin Jawad: ainda há empecilhos na Otan para zona de exclusão aérea O comunicado final do encontro, porém, deverá manter a ameaça de futura intervenção militar, como meio de pressionar o líder líbio, Muamar Kadafi, a renunciar e deixar o país.

Principal opositor no governo americano, o secretário de Defesa, Robert Gates, não fez comentários ao chegar em Bruxelas. O porta-voz do Pentágono, Geoff Morrell, explicou não haver diferenças entre a opinião de Gates e as do presidente dos EUA, Barack Obama, e da secretária de Estado, Hillary Clinton, sobre a criação da zona de exclusão aérea. Em recentes declarações, Obama deixou no ar essa possibilidade. Na terça-feira, Hillary reiterou ser a intervenção militar viável apenas com o aval do Conselho de Segurança da ONU.

"Nós estamos comprometidos a apresentar ao presidente (Obama) o mais amplo leque de opções, entre elas a zona de exclusão militar", afirmou Morrel. "Mas ele (Gates) também vê como sua responsabilidade alertar o presidente e sua equipe de Segurança Nacional sobre as potenciais consequências de uma ação militar."

Mesmo na véspera do encontro da Otan, a Casa Branca resistiu em qualificar a reunião sobre Líbia entre Obama, Hillary e o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), Leon Panetta, como "decisiva". O porta-voz de Obama, Jay Carney, escapou de perguntas sobre a intervenção militar e argumentou serem "dramáticas" as iniciativas já adotadas pelos EUA - as sanções unilaterais, a ajuda aos refugiados e o envio de navios e de tropas para o Mediterrâneo. "Nós estamos aplicando essas medidas de forma a surtirem efeitos", insistiu Carney.

A reticência americana a uma ação militar na Líbia se deve a questões de princípio - o desejo de encerrar as guerras em curso e evitar novos conflitos - e orçamentárias. No entanto, há outros empecilhos na Otan para a criação da zona de exclusão aérea - autorização para o abate de qualquer aeronave do governo líbio em voo, como meio de impedir os recorrentes ataques a civis e de estimular o avanço por terra das forças rebeldes.

Um deles é a necessidade de aval do CS, requisito reforçado ontem pelo secretário-geral da organização, Anders Fogh Rasmussen. Um rascunho de resolução chegou a ser redigido pela França e Grã-Bretanha. O texto, porém, tende a ser vetado pela Rússia e pela China. Outro empecilho é a oposição da Alemanha, que tende a impedir o necessário consenso. Em paralelo à reunião da Otan, a Liga Árabe, a União Africana e a União Europeia farão suas próprias discussões sobre a crise líbia.

Uma alternativa em estudo é a ação militar conjunta de países da Europa e da África distantes 5.000 milhas da Líbia - considerada legítima mesmo sem a permissão do CS. A adoção da zona de exclusão aérea pela Liga Árabe, em cooperação com a União Africana, é outra opção. A proposta do presidente dessa entidade, o egípcio Amr Moussa, dependeria de discreto apoio militar dos EUA e de outros aliados. Os obstáculos, porém, estão nas oposições da Síria e da Argélia.