Título: PF indicia 26 pessoas no caso Kroll
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 15/04/2005, Economia & Negócios, p. A23
Inquérito policial chega à Justiça. Além de Daniel Dantas e Carla Cicco, são acusados servidores e funcionários da multinacional
A Polícia Federal indiciou 26 pessoas, entre empresários, servidores públicos e investigadores, envolvidos com a quadrilha de espionagem montada pela Kroll Associates no Brasil, esquema financiado pelo banqueiro Daniel Dantas, dono do Grupo Opportunity. A lista de indiciados consta do inquérito do Caso Kroll, entregue ontem à Justiça Federal e ao Ministério Público em São Paulo. Além dos indiciamentos por formação de quadrilha, corrupção ativa e divulgação de segredo de Dantas e sua principal executiva - a presidente da Brasil Telecom, Carla Cicco - a lista inclui nomes de servidores e ex-servidores. Inclui um dos grandes informantes da Kroll Associates, o ex-servidor do Banco Central Alcindo Ferreira. Segundo a PF, Alcindo atuou para os interesses da quadrilha, repassando informações ao espião Tiago Verdial cobertas pelo sigilo bancário, referentes a empréstimos realizados pela empresa Globopar. Alcindo foi indiciado por formação de quadrilha e divulgação de segredo.
Na lista de indiciados da Kroll, aparecem - além dos espiões Júlia Marinho e Tiago Verdial - os nomes de diretores da empresa no Brasil. Vander Aloísio Giordano, gerente da Kroll, é um dos indiciados por formação de quadrilha e corrupção ativa, por ter conhecimento do esquema de bisbilhotagem ilegal. Ele seria uma das pessoas a quem os espiões respondiam. Eduardo de Freitas Gomide, presidente da Kroll no Brasil, também foi indiciado por formação de quadrilha.
Os investigadores Rodrigo de Azevedo Ventura e Alessandro Ricardo Sanchez - acusados de operar equipamentos de escuta dentro da Kroll quando foram presos, no ano passado - também foram indiciados por formação de quadrilha.
A lista de indiciados tem ainda policiais civis. O policial Edmar Batista foi indiciado por violação de sigilo funcional. Ele teria recebido dinheiro para ter acesso a cadastros de números de telefone. A policial civil Sueli Leal foi indiciada por corrupção passiva. Ela teria repassado aos espiões dados como antecedentes criminais e sobre veículos.
Nilza Soares Martins, representante da empresa JRM Serviços Ltda, teria intermediado o contato de servidores públicos com a Kroll. Ela foi indiciada nos crimes de corrupção ativa. Alexandre e Rafael, filhos de Nilza, teriam atuado para a Kroll e foram indiciados também por corrupção ativa.
A PF indiciou ainda o servidor Nivaldo Costa, que trabalha na Receita Federal em Guarulhos (SP). Ele teria repassado dados da Receita para intermediários da Kroll, um deles a JRM Serviços. Entre outros ''subcontratados'' e pessoas que de alguma forma colaboraram com a Kroll estão na lista de indiciados o advogado Mauro Sussumu Osawa e Márcia Cristina Ruiz, que trabalhou na empresa.
A PF entregou a cópia do inquérito à Justiça Federal e ao Ministério Público para que sejam apresentadas as denúncias contra a quadrilha. Dos 26 indiciados, 18 respondem por formação de quadrilha e o restante por crimes diversos.
Até a noite de ontem, nem a Kroll nem os advogados do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, e da executiva Carla Cico, da Brasil Telecom, conheciam o conteúdo do relatório da PF.
- A defesa está na expectativa de ter acesso ao relatório, porque, pelo que conhecemos até o momento, jamais daria ensejo a indiciamentos fundamentados. Só quando tivermos acesso, saberemos tecnicamente que caminho tomar - disse o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, que defende Cicco e Dantas.
A Kroll informou que aguardará a conclusão da investigação ''ainda em curso'' e reiterou que a empresa tem total confiança na integridade da conduta de seus funcionários.