Correio Braziliense, n. 21400, 19/10/2021. Política, p. 2-3

CPI busco superar racha na reta final

Jorge Vasconcellos
Luana Patriolino


O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), deixou claro, ontem, que há um racha no grupo majoritário da comissão, formado por senadores independentes e de oposição. Ele se defendeu das críticas que tem recebido de colegas sobre o vazamento de partes do relatório final das investigações. O parlamentar também rebateu questionamentos de membros do colegiado sobre sua decisão de imputar alguns crimes ao presidente Jair Bolsonaro, como o de genocídio de populações indígenas.

Perguntado por jornalistas se pretende alterar a relação de delitos atribuídos ao chefe do governo, Calheiros respondeu negativamente. “Eu, por enquanto, não estou admitindo retirar nada. A maioria retirará o que quiser; apenas a maioria. Da minha parte, eu ainda tenho algumas coisas a acrescentar. Hoje mesmo, o senador Randolfe Rodrigues (vice-presidente da CPI) pediu a continuidade da investigação com relação ao ministro da Economia (Paulo Guedes). Da minha parte, eu concordo, mas vamos submeter isso à maioria", disse o relator da CPI.

O vazamento de trechos do relatório final para a imprensa provocou uma crise dentro do grupo majoritário da comissão, conhecido como G7. O Correio apurou que, internamente, os senadores acusaram Renan de descumprir o compromisso de que ninguém teria acesso ao relatório antes deles.

Por esse acordo, Renan discutiria os pontos do documento com os outros senadores na última sexta-feira, acataria sugestões e, nesta semana, submeteria o relatório ao colegiado. Por causa do vazamento, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), que pretendia votar o parecer somente após uma discussão interna, decidiu adiar a leitura do documento para amanhã — estava marcada para hoje. A votação do relatório pelo colegiado também foi adiada, para o dia 26.

Ontem, Renan procurou minimizar o vazamento de trechos do relatório. “Nós tivemos vazamento de umas minutas, foram minutas apenas, que expressam um pouco o meu ponto de vista, eu os defenderei a partir das provas colhidas, dos depoimentos, mas a disposição de todas as partes é com relação à construção de uma convergência”, disse o relator.

Renan disse também que, de certa forma, o vazamento teve um lado positivo. “Agora, se vazaram, vamos aproveitar para que a gente discorde concretamente em torno de algum ponto. Eu ainda não fui informado sobre qual é a divergência em torno de algum ponto”, declarou.

A postura do relator tem causado preocupações entre membros do G7 em relação a possíveis danos à credibilidade da CPI. Os senadores do grupo majoritário querem que o relator altere alguns pontos do parecer. Eles consideram não ser possível sustentar a responsabilidade de Bolsonaro por onze crimes, em especial o de homicídio qualificado e genocídio de populações indígens. A preocupação é de que a inclusão desses delitos, que seriam sem sustentação, sirva de justificativa para que o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, arquive o relatório. Os parlamentares entendem que um argumento sólido acerca de quatro ou cinco crimes seria o recomendável para responsabilizar o presidente pelas mais de 600 mil mortes por covid-19 no país e pelas falhas no enfrentamento da crise sanitária.

Nos últimos dias, Omar Aziz, disse que precisa “ser convencido” de que houve genocídio durante a pandemia. Renan, sem citar o nome do colega, afirmou a jornalistas que só tomou conhecimento de discordâncias em relação ao relatório por meio da imprensa. “Eu estou aguardando que as pessoas me procurem para conversar”, afirmou. “Não houve nenhum pedido de emendamento do relatório. Essas posições que a proposta do relatório contém, elas são públicas. A investigação é pública, se fez com transmissão com meios de comunicação, com acompanhamento de internautas. Tudo o que aqui se investigou, se publicou".

Credibilidade

Para Cristiano Noronha, cientista político e sócio da Arko Advice, “essa divisão acaba reforçando o argumento do governo de que era uma CPI com um objetivo claramente político, e não de descobrir de fato ou investigar de fato problemas de corrupção e de desvio de recursos que houve no combate à pandemia”. Segundo ele, “quanto mais confusão tiver na CPI, mais reforçado o argumento do governo e mais enfraquecida a CPI na reta final”. Noronha acredita que, com o adiamento da votação do relatório, haja espaço para uma reconciliação e algum tipo de entendimento entre os membros do G7.

Já Sérgio Praça, cientista político pela Fundação Getúlio Vargas, disse achar estranho que um senador como Renan Calheiros esteja envolvido em um caso de vazamento. “Um sujeito que é tão experiente na política e no Senado não conseguiu antever que vazar o relatório causaria problemas — a não ser que ele tenha feito de propósito”, disse.

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Eu espero que acabe, diz governista

Nenhum governista esteve presente na sessão de ontem da CPI, marcada pelo depoimento de familiares das vítimas de covid-19. Mas os aliados do Planalto mantiveram as críticas ao colegiado. Ele afirmam que o grupo agiu de maneira enviesada, com clara intenção de atacar o presidente Jair Bolsonaro. Diante do provável indiciamento do chefe do Executivo por diversos crimes, os aliados denunciam perseguição e pedem o fim da comissão.

Ao Correio, o senador Marcos Rogério (DEM-RO), afirmou que vê politização dominou o trabalho do grupo. “Eu espero que a CPI acabe. Porque se ela não quer investigar o que de fato ela nasceu para investigar, não tem razão para existir. Não querem investigar corrupção, querem apenas investir em uma narrativa política contra o presidente da República”, disse. “Não há evidências, não há provas, não há nada que aponte para o presidente”, garantiu.

O parlamentar acrescentou que o presidente da República não deveria ser indiciado, pois não houve aprofundamento de investigações. “O relatório do Renan [Calheiros] aponta para o presidente da República. O presidente nunca foi e não pode ser investigado pela CPI. A CPI não tem competência para isso”, ressaltou Rogério.

O senador demista ainda citou o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz de Britto Ribeiro, que está na lista de investigados pelo colegiado. “Ele nunca foi ouvido na CPI, mas foi colocado como investigado. A CPI foi usada politicamente em um jogo pré-eleitoral”, concluiu.

Ontem, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) criticou, em vídeo, a ideia de trazer depoimento de vitimas. O filho do presidente chamou a iniciativa do colegiado de “mancha na imagem do Senado” e isentou o chefe do Executivo pelo aumento dos números da pandemia no país. “A CPI está entrando para a história como algo que mancha a imagem do Senado Federal. (É) Algo que certamente grande parte da população olha para cá agora com nojo por ter a audácia, a falta de sensibilidade de explorar a dor dessas pessoas que estão aí hoje depondo, com o compromisso que elas falassem mal do Bolsonaro”, argumentou.

“Pessoas foram escolhidas a dedo para virem à CPI e falarem mal do presidente Bolsonaro. Pessoas com histórico de militância contra Bolsonaro vieram para a CPI hoje com o compromisso de responsabilizar Bolsonaro pelas mortes de seus familiares pela covid e não por causa do Bolsonaro”, acusou. (LP)

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Quando as vítimas da Covid têm nome

A sessão de ontem foi dedicada às pessoas que perderam algo que não tem preço: a vida de um ente querido. Emocionados, os parentes de vítimas da covid-19 relataram as experiências pessoais durante a crise sanitária. Em vários momentos, parlamentares e outras pessoas presentes à sessão foram às lágrimas. O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), se disse solidário com as vítimas. Ele reiterou que o objetivo da comissão “não é vingança, e, sim, justiça”, “para que quem esteja de plantão no poder saiba que o Brasil teve uma pandemia que levou milhares de vidas e as pessoas que foram omissas foram penalizadas por isso”, prometeu.

Durante a sessão, o senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou que ontem foi o dia mais importante da comissão. “Eu e outros aqui lutamos muito para essa investigação acontecer, porque todo dia a gente via quantas pessoas tinham perdido a vida no nosso país para a covid. Diante de um governo omisso que se colocou do lado do vírus desde o começo”, destacou o parlamentar.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) também definiu o dia como emblemático. “A data de hoje ficará marcada. A CPI da Covid trouxe aqui algumas vozes destes números que trocamos na placa diariamente. Não são só números. Nunca foram. São dores, sofrimentos, pessoas enlutadas”, lembrou.

Os parlamentares também reforçaram a intenção de aprovar no relatório final da CPI propostas de apoio às vítimas, a seus parentes e aos chamados “órfãos da covid”. “Pretendemos criar uma pensão para os órfãos cuja renda recomende o pagamento. E pensamos em incluir a covid na relação daquelas doenças que ensejarão a aposentadoria por invalidez quando a perícia médica atestar”, disse Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI. (LP)

Relatos comoventes 

“Minha dor não é mimimi”

“Nós merecíamos um pedido de desculpa da maior autoridade do país. Porque não é questão política – se é de um partido, se é de outro. Nós estamos falando de vidas de pessoas. Cada depoimento aqui, em cada depoimento, um sentiu o depoimento do outro e acrescentou o que o outro tinha para falar, entendeu? Então, a nossa dor não é mimimi; nós não somos palhaços, entendeu? É real, sabe? (...) a minha dor não é ‘mimimi’. Não é, não é. Dói para caramba mesmo – dói, dói. Não aceito que ninguém aceite isso como normal. Não é normal. Não é minha só, não. É de todas as pessoas que perderam, de todas as pessoas que perderam pessoas tão queridas”.

Márcio Antônio Silva,

O taxista do Rio de Janeiro perdeu o filho, Hugo Dutra do Nascimento, 25 anos, vítima da covid-19, em abril de 2020. Ele se notabilizou durante um ato em homenagem aos mortos da pandemia. Na ocasião, um homem derrubou as cruzes que estavam fincadas na areia da praia de Copacabana. Indignado, Márcio fincou novamente os objetos na areia.

“A Justiça vai acontecer”

“Nós perdemos nosso pai, nossa mãe, os amores da nossa vida. A dor é grande, mas a vontade de justiça é maior, por isso que eu estou aqui hoje. Eu estou aqui hoje para representar essas várias famílias que passaram pela dor que passamos. E é por isso que eu fico tão emocionada de estar aqui, aqui neste lugar, representa para mim uma vitória, porque eu sei que a justiça vai acontecer . Todos vocês vão conseguir estar fazendo a justiça com cada um, porque não são só números, são pessoas, são vidas, são sonhos, são histórias que foram encerradas. Encerradas por negligências, por tantas negligências, e nós queremos justiça. O sangue dessas mais de 600 mil vítimas escorre nas mãos de cada um que subestimou esse vírus”.

Kátia Shirlene Castilho dos Santos

Moradora de João Pessoa, perdeu os pais para a covid-19 em São Paulo. Kátia acompanhou a internação da mãe na Prevent Senior, e o tratamento dela com o ‘kit covid’.

“A gente tinha dois pilares”

“Assim que tudo aconteceu, eu senti dois impactos. Eu e minha irmã, a gente teve um impacto emocional a princípio e, depois, impacto financeiro – impacto emocional porque, diante do contexto, diante do que aconteceu, a gente não estava bem psicologicamente, assim como a gente não está até hoje. Então, a gente tem esse impacto e o impacto financeiro, porque a gente tinha os dois esteios da nossa vida, os dois pilares, as pessoas que cuidavam da gente, que sustentavam e faziam tudo, a gente não tinha essa responsabilidade. A gente passou a não ter e também a não ter quem nos ajudasse com isso”.

Giovanna Gomes Mendes da Silva

Moradora de Manaus (AM), com 19 anos de idade, perdeu os pais para a covid-19 e ficou sozinha com a irmã de 11 anos.

“A minha irmã não volta”

“Com relação a tudo isso, fica aqui o meu desabafo, porque a minha irmã não volta, não volta mesmo. Até hoje eu não consegui nem viver o meu luto, porque, dois meses depois, eu perdi outro irmão. A minha mãe vive em processo de depressão; eu faço terapia há dois anos, porque a minha irmã era uma pessoa especial na nossa família e ela tinha realmente uma alegria que não tem como substituir. Mas eu espero que, por meio do meu relato – que é pouco diante de tantos que viveram no Brasil inteiro – possa, realmente, tocar no coração das pessoas que podem fazer alguma coisa. Porque o que eu posso fazer é relatar a história dela, relatar realmente a situação que eu vivo como profissional de saúde”.

Mayra Pires Lima

Enfermeira, trabalhou no Amazonas durante o colapso enfrentado pelo estado no início deste ano, em meio à falta de insumos e oxigênio hospitalar para tratar pacientes da doença. Ela não conseguiu “viver o luto” após ter dois irmãos mortos pela covid-19.