Título: Legislatura manchada antes de começar
Autor: Paulo Celso Pereira
Fonte: Jornal do Brasil, 18/04/2005, País, p. A4
Em menos de três anos de trabalho legislativo, a Assembléia do Rio de Janeiro está marcada por uma série de denúncias. Nesse período, deputados estaduais enfrentaram as mais diversas acusações. E os escândalos começaram antes mesmo de os 70 deputados serem empossados.
Em janeiro de 2003, o então deputado eleito Valdeci Paiva de Jesus (PSL) foi assassinado em Benfica. As suspeitas recaíram imediatamente sobre seu suplente, Marcos Abrahão, que assumiu o cargo e, após um conturbado processo de cassação, continua atuando na Assembléia graças a uma liminar concedida pelo Superior Tribunal de Justiça.
Em junho de 2003, outro fato negativo manchou a imagem da Casa. Dessa vez, atingindo o próprio presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB). Ele foi denunciado depois de terem sido flagradas 39 pessoas trabalhando sob regime de escravidão na fazenda Agrovás, de sua propriedade, em Mato Grosso. Após o flagrante do Ministério Público do Trabalho e das polícias Civil e Federal, o presidente da Casa acertou sua situação com o Ministério do Trabalho.
Ainda em 2003, a Alerj teve de interromper a polêmica CPI que apurava denúncias de irregularidades em empresas financeiras. A comissão passou a ser alvo de investigação pela Corregedoria-Geral da Casa, em função de uma denúncia de extorsão no valor de US$ 1 milhão. Ninguém foi punido.
Se havia esperança de que em 2004 a imagem fosse melhorar, isso durou só até novembro, quando duas bombas atingiram a Alerj. Quase simultaneamente, surgiram as denúncias contra o deputado Alessandro Calazans - por negociação de votos para alterar o resultado da CPI da Loterj/RioPrevidência, da qual era presidente - e de participação dos deputados Domingos Brazão (PMDB), Dica (PFL) e, mais uma vez, Alessandro Calazans em dois esquemas interligados: a máfia de adulteração de combustíveis no estado do Rio e o tráfico de influência para pressionar a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente a conceder licenças ambientais irregulares.
O principal acusado nas denúncias da máfia dos combustíveis até agora é Domingos Brazão, que coincidentemente foi o principal defensor da absolvição de Alessandro Calazans. Brazão teve o nome citado após diligências e apreensões de documentos realizadas pela Polícia Federal no âmbito de uma operação de desbaratamento de uma quadrilha de adulteração de gasolina.
Um dos presos pela Polícia Federal como supostos mentores do esquema de fraude, Renan de Macedo Leite trabalhava como assessor no gabinete de Brazão na Assembléia do Rio desde junho. Desde a contratação de Macedo Leite, curiosamente, o deputado se tornou sócio de três postos de gasolina no Rio de Janeiro.