Correio Braziliense, n. 21408, 27/10/2023. Cidades, p. 15

DF desobriga uso de máscaras ao ar livre

Samara Schwingel


O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), desobrigou o uso de máscaras faciais ao ar livre. Em decreto publicado em edição extra do Diário Oficial do DF (DODF) de ontem, o chefe do Executivo local detalhou que o item permanece necessário em outros tipos de ambientes, inclusive condomínios, comércios e no transporte coletivo. As máscaras faciais eram obrigatórias no DF desde abril do ano passado e têm como objetivo evitar a disseminação da covid-19 na capital. A desobrigação passa a valer a partir de 3 de novembro. Especialistas avaliam que a medida é válida, mas com ressalvas.

Na segunda-feira, o governador havia manifestado a vontade de liberar a obrigatoriedade do uso. Para a infectologista Joana D’arc Gonçalves, a medida pode ter sido precipitada. “Em ambientes abertos, as partículas ficam suspensas por um tempo muito menor e, realmente, a possibilidade de infecção é menor, mas existe. Principalmente se tiver aglomeração”, comenta. A médica destaca que seria melhor retirar a obrigatoriedade de máscaras quando 70% da população fosse vacinada com duas doses. “E a flexibilização deve começar por ambientes abertos, mas temos um número muito grande de vulneráveis que ainda não completaram o ciclo vacinal”, diz.

A especialista afirma que o DF está em uma sequência de quedas dos indicadores da pandemia e que é importante cuidar para que a desobrigação do uso de máscaras não seja determinante para um retrocesso. “Temos que fiscalizar aglomerações e o uso de máscaras em locais fechados para que os números não voltem a subir”. Entre segunda-feira e ontem, o DF registrou a menor média móvel de casos do ano. O índice chegou a 348,86, uma redução de 57,98% em relação a 14 dias atrás. A mediana de mortes chegou a 14,14, valor 6,6% menor que o de duas semanas anteriores. A taxa de transmissão estava em 0,76. Nas últimas 24h, o DF registrou 298 casos e 19 mortes por covid-19. O total chegou a 514.035 infecções e 10.831 óbitos confirmados desde o início da pandemia. A taxa de ocupação dos leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) voltados para a covid-19 na rede pública estava em 62,03%. Das 108 UTIs, 49 estavam ocupadas, 30 vagas e 29 bloqueadas. Na rede privada, o índice era de 57,39%, sendo que dos 183 leitos, 104 estavam ocupados, 76 livres e três bloqueados.

O infectologista Hemerson Luz explica que o atual cenário do DF é mais controlado, e isso é consequência, principalmente, da vacinação. “Estamos com uma taxa de transmissão baixa, que demonstra um controle da pandemia”, diz. Ele avalia que o debate sobre o uso de máscaras é válido neste momento. “Dá para discutirmos a retirada da obrigatoriedade”, avalia. Luz, no entanto, ressalta que sempre há um risco de nova explosão dos casos.

Internações

No DF, a maioria dos internados com quadro de infecção por covid-19 são pessoas que não se vacinaram contra a doença. Os dados são da Secretaria de Saúde local e foram obtidos pelo Correio por meio da Lei de Acesso à Informação. De janeiro a 18 de outubro de 2021, foram 24.373 pessoas internadas devido ao novo coronavírus nas redes pública e privada do DF. Destas, 80,24% não tinham informação de terem iniciado o ciclo vacinal. Ontem, a capital federal chegou a 51,49% da população total vacinada com duas doses. Confira os locais de vacinação no site do Correio.

Os dados mostram que as vacinas são eficazes em diminuir as chances de se desenvolver casos graves da covid-19. É o que afirma o infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Julival Ribeiro. “É inegável. As vacinas são eficazes e seguras, e a chance de se obter a forma grave da doença, precisar de internação e ir à óbito são muito menores do que quando não se tinha imunizantes”, afirma. Apesar de comemorar o efeito das vacinas, ele atenta para o prazo de imunização e uso de medidas preventivas não farmacológicas. “Quando se completa o ciclo vacinal, são 14 dias até se obter a imunização. A proteção passa pelo uso de máscaras, distanciamento e vacinação”, ressalta.

Avaliando os números, o médico lamenta que ainda existam pessoas que se recusem a iniciar a imunização contra a doença. “São pessoas que podem cair em mentiras e se prejudicam por isso. Elas podem desenvolver covid grave e, se não morrerem, têm mais chances de desenvolverem complicações como: problema respiratório, diabetes, problemas psiquiátricos e pulmonares, entre outros”, declara. Julival completa a análise com um alerta. “Aqueles que já podem tomar o reforço, conhecido como terceira dose, tomem. É uma forma de estimular o sistema imunológico e garantir que a resposta à doença aumente”, diz.

Responsabilidade

Apesar de algumas pessoas não terem se vacinado contra a covid-19, outras acreditam que a imunização é um ato de responsabilidade coletiva. É o caso de Thaline Martins, 37 anos. Moradora do Guará 1, ela tomou a segunda dose ontem. “Eu cheguei a pegar covid, em setembro do ano passado, e tenho sequelas até hoje. Nunca tive problemas com a vacinação e fiz isso por mim, pela minha família e pelo coletivo”, diz. A servidora pública afirma que se sente mais segura com a imunização. “Não conheço pessoas que não se vacinaram e, apesar de ainda seguir os protocolos como o uso de máscaras e distanciamento social, me sinto mais segura sabendo que as pessoas ao meu redor estão vacinadas”, comenta.

Assim como Thaline, Jaene Pereira, 31, recebeu a segunda dose ontem. A operadora de caixa e moradora de Samambaia chegou a perder um tio para a covid-19. “Foi há uns quatro meses. Ele tinha 60 anos, comorbidades e não tinha se vacinado. Ficou internado por quase um mês”, conta. Jaene comenta que não conhece pessoas que se recusam a se vacinar e que todos da família optaram por receber o imunizante. “Tomei a segunda dose no dia certinho que estava marcado no cartão. Lá em casa, só meu filho, que tem um ano, não se vacinou contra a covid, porque não pode”, complementa.

Reparos

O Hospital Regional de Ceilândia (HRC) recebe a primeira grande reforma em 40 anos de funcionamento. Ao menos seis setores da unidade são contemplados com os trabalhos, que incluem novos mobiliários, pintura, troca de pisos, revestimentos e reparos nas partes elétrica e hidráulica. Atualmente, os serviços estão concentrados no corredor central, porta de entrada do HRC. A previsão da Secretaria de Saúde é entregar a obra no início do mês que vem. A pasta prevê que a reforma custará R$ 2,3 milhões. Os atendimentos no hospital não serão afetados durante as obras, exceto os exames de tomografia, que têm sido feitos nos hospitais regionais de Taguatinga e Samambaia.