Título: BC acha que fortalecimento da economia permite juro real menor
Autor: Nakagawa, Fernando ; Fernandes, Adriana
Fonte: Jornal do Brasil, 09/09/2011, Economia, p. B1/3/4

Segundo fonte do governo, taxa ""neutra"", que não estimula nem desestimula o desempenho da economia, está entre 4% e 6%

O Banco Central (BC) considera que a taxa de juros real neutra da economia brasileira se situa na metade inferior das estimativas do mercado apresentadas no Relatório de Inflação (RI) de setembro de 2010. Isso significa entre 4% e 6%, acima da inflação. A informação é de uma fonte do governo.

A taxa de juros neutra é aquela que nem estimula nem desestimula a economia, e é muito importante para a política monetária. Quando o BC quer conter a demanda para frear a inflação, ele regula a Selic, a taxa básica de juros, para uma posição acima do juro neutro. No caso de risco de desaceleração muito forte e queda da inflação abaixo da meta, o procedimento é inverso. Se a economia está em velocidade de cruzeiro, com a inflação tendendo ao centro da meta (4,5%), a Selic tende a ficar próxima da taxa neutra. Em todos os casos, quanto maior for o juro neutro, maior será a Selic.

Estimativas. No RI de setembro, o BC divulgou os resultados da sondagem que fez no mercado sobre estimativas da taxa real neutra. Quase todas as estimativas variaram entre 4% e 8%, com uma concentração entre 6% e 6,5%. Para o BC, está claro que a razão está com o grupo que estimou a taxa neutra de 4% a 6%.

Supondo que a inflação nos próximos 12 meses fique em 5,5%, uma taxa de juros real neutra de 8% implica juros nominais interbancários próximos a 14% (e a Selic teria de ficar perto deste patamar). Se a taxa real neutra for de 6%, os juros nominais já caem para pouco menos de 12%. Se for de 4%, para cerca de 9,7%. Hoje, a Selic está em 12%. Já a taxa de juros real efetiva nas operações interbancárias de um ano está um pouco abaixo de 5%.

Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, o BC enfatizou a importância da queda da taxa de juros neutra ao longo dos últimos anos: "Como consequência da estabilização e da correção de desequilíbrios, as quais determinaram mudanças estruturais importantes, o processo de amadurecimento do regime de metas se encontra em estágio avançado, e isso se reflete favoravelmente na dinâmica da taxa de juros neutra e na potência da política monetária".

A potência da política monetária é o poder que mudanças na Selic têm de esfriar ou aquecer a economia, para, respectivamente, conter a inflação ou evitar uma desaceleração muito drástica. Segundo a ata, a evolução do mercado financeiro e a redução da inflação e da instabilidade cambial contribuíram para reduzir a taxa neutra.

O alongamento dos contratos também é citado como fator que aumenta a potência da política monetária.

Dois outros fatores importantes para o BC, em termos de redução dos juros neutros no Brasil, são a melhora comparativa dos fundamentos brasileiros em relação ao resto do mundo (a crise dos países ricos contribui) e o compromisso fiscal do governo.

O Banco Central está ancorando toda a sua estratégia na visão de que o governo terá um desempenho fiscal bem firme até o final do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Para o BC, o governo se comprometeu a realizar superávit primário (exclui pagamento de juros) de 3% a 3,1% do PIB, sem ajustes, até 2014. Os ajustes, no caso, significam a exclusão de certas despesas, como investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da contabilidade do superávit primário.

Segundo a mesma fonte do governo, o BC também ficou encorajado com o aumento da meta de superávit primário em 2011 em R$ 10 bilhões, que deve levá-la para cerca de 3,15% do PIB.

O BC não trabalha com a hipótese de que o governo não cumprirá seus compromissos fiscais. Em relação à conjuntura internacional, cuja piora justificou o corte de 0,5 ponto da Selic na semana passada, o BC considera equivocada a visão de que aposte em desdobramentos catastróficos. Na ata, está mencionado um cenário alternativo, cujos efeitos correspondem a 25% do ocorrido na crise de 2008 e 2009. Esse cenário teve bastante relevância para a decisão do Copom.

Em termos de comunicação com o mercado, o BC não acha que tenha feito nada "fora das regras do jogo". Em circunstâncias excepcionais, pode haver mudanças bruscas da política monetária, sem tempo para todos os rituais habituais de comunicação.