Título: Aposta arriscada
Autor: Nakagawa, Fernando ; Fernandes, Adriana
Fonte: Jornal do Brasil, 09/09/2011, Economia, p. B1/3/4
Não é tarefa simples entender a decisão do Banco Central de cortar juros com base na leitura da ata do Copom. O texto é essencialmente correto e seria injusto dizer que é faccioso. Reconhece-se que há indicadores de dinamismo da economia que ainda convivem com os primeiros sinais de desaceleração. Da mesma forma, e em favor da transparência, a ata deixa claro que os membros do Comitê observaram ampla gama de indicadores econômicos antes de tomarem a decisão de reduzir juros.
Tudo muito correto. Até mesmo o fato de que o mercado, até aquela data, mantinha estável sua expectativa de inflação para 2001 e 2012 é citado. Nobre concessão.
Se é assim, o que o BC viu que ninguém está vendo? Basicamente, dois pontos. Em primeiro lugar, a autoridade monetária atribui um peso muito maior que o consenso dos analistas à crise internacional. Não se espera, evidentemente, que o modelo ("de equilíbrio geral dinâmico estocástico, de médio porte") que serviu de base para as inferências do governo seja discutido em público detalhadamente.
Mas não fica claro por que o impacto da atual fase da crise financeira seria de um quarto do que se viu em 2008/2009 (Por que não um sexto? Talvez um sétimo?) . Da mesma forma, a ata não gasta tempo para tentar explicar de que forma essa desaceleração poderia se traduzir em uma inflação mais baixa nos próximos meses. De uma forma ou outra, o fato é que o BC está vendo uma crise internacional mais séria .
O outro fantasma (este do bem) que só a autoridade monetária enxerga é uma contribuição mais efetiva de uma suposto "processo de consolidação fiscal", que torna o "balanço de riscos para a inflação mais favorável". Aqui, a discordância com o consenso de mercado é mais grave.
O anúncio de que R$ 10 bilhões do excesso de arrecadação deixarão de ser gastos não chegou a entusiasmar ninguém - mas parece ter convencido o Banco Central. Talvez por dever de ofício.
Um exercício interessante é imaginar que os juros tivessem sido mantidos em 12,5% e ler novamente a ata. Ela faria mais sentido. Com tudo que foi apontado pelo próprio Copom e sem carregar nem no pessimismo a respeito da crise internacional, nem no otimismo com as contas públicas, fica fácil entender por que dois dos cinco membros do comitê votaram contra o corte. O Banco Central, tradicionalmente conservador, resolveu apostar. O problema é que, se ele estiver errado, perdemos todos nós.
É ECONOMISTA. FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL DO BRASIL E PROFESSOR DA PUC-SP E FGV-SP.