Correio Braziliense, n. 21414, 02/11/2021. Política, p. 3

Especialistas descrentes com compromisso do Brasil



Especialistas receberam com desconfiança as metas anunciadas pelo governo de cortar 50% das emissões de gases de efeito estufa até 2030 — antes, a previsão era de 43% —, de atingir a neutralidade de carbono até 2050 e de zerar o desmatamento ilegal até 2028.
A Human Rights Watch destacou que "os compromissos e políticas climáticas do Brasil estão muito aquém do que é necessário para enfrentar a crise ambiental e de direitos humanos na floresta amazônica". Para Maria Laura Canineu, diretora da organização no país, o "governo Bolsonaro pretende que o mundo, agora, pense que o Brasil está comprometido em salvar a floresta amazônica". "Mas esse compromisso não pode ser levado a sério, considerando seu histórico desastroso e o fracasso em apresentar planos confiáveis para obter resultados que são urgentemente necessários no combate ao desmatamento", criticou.

Especialista em política climática do Observatório do Clima, Stela Herschmann afirmou que o Brasil tem potencial para uma meta maior que a declarada pelo governo sobre emissões de gases do efeito estufa. Ela explicou ao Correio que o Observatório apresentou um estudo no qual demonstrou que o país poderia se comprometer com cerca de 81% de redução até 2030.

Herschmann está entre os que consideram a atitude do governo uma manobra para maquiar a verdadeira situação. "De ambicioso, não tem nada. Ele está fazendo outra manobra. Na verdade, está corrigindo um problema que o próprio governo Bolsonaro tinha criado", frisou. "Estamos com a mesma promessa de seis anos atrás. Quando ele diz que está sendo mais ambicioso, mente, e continua violando o Acordo de Paris, porque o que fez foi apenas se igualar ao compromisso que havia sido apresentado anteriormente, em 2015", declarou.

Ela se refere ao que outros especialistas chamam de "pedalada climática". Definida no Acordo de Paris, seis anos atrás, a meta de 43% de cortes nas emissões até 2030 tomava como base os lançamentos de gases do efeito estufa na atmosfera em 2005, projetados na época em 2,1 bilhões de toneladas de CO2.

O governo federal, porém, revisou o cálculo da base de emissões, o que elevou a quantidade de gases emitida em 2005 para 2,8 bilhões de toneladas de CO2, o que reduz o corte na liberação de gás carbônico na atmosfera. O Executivo é alvo de ação na Justiça por causa dessa revisão.

"Parece que está aumentando a ambição, que vai entregar mais, só que os 50% não foram escolhidos à toa. Esse é o valor que, apenas, empata com a promessa feita em 2015. Era o mesmo número dito no governo Dilma (Rousseff). Não é nem correção, é um empate no jogo", frisou Herschmann.

Para André Lima — coordenador do projeto Radar Clima e Sustentabilidade, consultor em políticas públicas de clima do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) e ex-secretário de meio ambiente no Distrito Federal —, o Brasil precisava ter, segundo os princípios da Convenção do Clima, metas mais progressivas. "Com essa alteração (de ontem), parece que ele recuou do que fez em 2020 e voltou para 2015. A resultante é zero. Não fez avanço nenhum", comentou. (Ingrid Soares, Jorge Vasconcellos e Tainá Andrade, com Agência Estado).