Título: Equador: Congresso ratifica fim do Supremo
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Fonte: Jornal do Brasil, 19/04/2005, Internacional, p. A9
Oposição prepara novos protestos contra presidente
QUITO - Em sessão extraordinária convocada para a noite de domingo, legisladores equatorianos aprovaram com unanimidade a destituição total da Suprema Corte de Justiça (SCJ) e marcaram para hoje o início do debate sobre como será o processo de substituição dos 31 juízes. A oposição, que no momento da votação reuniu 2 mil manifestantes do lado de fora do Congresso, agora prepara novos protestos para pedir a renúncia do presidente Lucio Gutiérrez.
A SCJ - que o presidente acusava de se opor a ele - foi reestruturada em 8 de dezembro pela maioria legislativa, até então aliada de Gutierrez. Na ocasião, foram empossados magistrados considerados favoráveis aos governo. A medida abriu caminho à crise e a uma breve declaração de estado de emergência, já que levou vários setores a considerar que o presidente buscava concentrar poderes, violando a Constituição.
A destituição da SCJ só foi possível graças à pressão de milhares de cidadãos, que há semanas vêm tomando as ruas de Quito.
- Já não somos cordeiros, agora somos pastores - disse um deles ontem na Rádio La Luna, que desde a semana passada se transformou no meio de comunicação dos organizadores do protesto.
Através da rádio, foi convocada uma reunião em um parque do centro-norte de Quito, assim como outro protesto pelas ruas da cidade. A mobilização foi batizada de ''cameraço'', porque os participantes foram aconselhados a levar câmaras para fotografar possíveis infiltrados que tentassem provocar o caos.
- Mataram um morto - disse com ironia um dos cidadãos na rádio, ao considerar atrasada a votação parlamentar, já que ocorreu após a decisão de Gutiérrez de demitir todos os integrantes, anunciada na sexta-feira.
- A corte caiu e isso é satisfatório, mas agora é preciso vigiar para que a nova esteja totalmente despolitizada - disse o prefeito de Guayaquil, Jaime Nebot, do opositor e conservador Partido Social Cristão.
Nebot tinha previsto liderar uma manifestação em Guayaquil, enquanto o prefeito de Machala, o também social-cristão Carlos Falquéz presidiria outra ''em rejeição à ditadura e pela restauração institucional''.
Apesar da pressão, Gutierrez, que está no poder há 27 meses, disse ontem que não pretende renunciar.
- Fui eleito com 59% do eleitorado, 3 milhões de votos, não por 3 mil ou 5 mil pessoas que gritam ''Fora Lucio'' e são patrocinadas por um partido político - disse à colombiana Rádio Caracol. - Enquanto em Quito pedem minha renúncia, nas outras cidades que visito pedem minha reeleição, e é pelos resultados econômicos. Temos a inflação mais baixa de toda a história do país.
Gutierrez foi eleito com apoio majoritário da camada mais pobre da população, mas perdeu suporte ao negociar com o Fundo Monetário Internacional e adotar austeras políticas econômicas.