Título: Desarmar a sociedade em favor da vida
Autor: Marcelo sereno
Fonte: Jornal do Brasil, 20/04/2005, Outras Opniões, p. A13

A campanha de desarmamento é um sucesso. Nove meses após seu lançamento, 320 mil armas já foram recolhidas. As pesquisas sobre violência, realizadas em grandes centros após o início da campanha, comprovam de maneira inquestionável que, com menos armas em circulação, menos gente é morta. Em São Paulo, os índices de homicídios sofreram redução de 18%, enquanto em Curitiba os homicídios despencaram em 27% na comparação entre junho e dezembro de 2004. Nesse período, foram recolhidas 218.847 armas no país, quase três vezes mais que as 80 mil que o governo esperava coletar. O sucesso fez a campanha nacional do desarmamento receber o Prêmio da Unesco para Direitos Humanos e Cultura da Paz, no ano de 2004. Com a proximidade do plebiscito do dia dois de outubro, em que os brasileiros vão decidir sobre a proibição total da venda de armas de fogo no país, os setores mais conservadores da sociedade brasileira começam a se articular para tentar mudar os rumos da consulta popular. Por isso, causa preocupação pesquisa do instituto Sensus, divulgada em fevereiro, que aponta queda do apoio popular ao projeto do desarmamento total. Mas o governo Lula não assistirá de braços cruzados a essa ofensiva dos lobbies da indústria das armas.

Normalmente, os defensores do comércio de armas apelam para justificativas frágeis, que se desmontam com uma simples análise. O primeiro argumento é que a proibição da venda de armas de fogo desarmaria os cidadãos de bem enquanto os bandidos continuariam fortemente munidos. É lógico que o governo tem consciência de que a proibição do comércio não vai desarmar os delinqüentes, mas outras iniciativas estão sendo tomadas. O que os adeptos dessa teoria não vêem é que boa parte dos homicídios é causada por acidentes entre os próprios cidadãos de bem. Afinal quantas famílias já perderam seus entes queridos em uma discussão de bar entre dois pais de família ou em uma discussão de trânsito. Não é possível fechar os olhos para casos como do juiz que assassinou a sangue frio um segurança de supermercado ou para todos os casos aqui e nos EUA de adolescentes que assassinaram a tiros colegas nas escolas.

Ainda assim, há quem questione o esforço do governo para desarmar a população. Outra alegação recorrente dos opositores da campanha é que o cidadão deve ter o direito de buscar seus próprios meios de se defender, já que o Estado não o faz. Esse raciocínio, no entanto, esconde uma perigosa armadilha. A arma que o cidadão guarda debaixo do travesseiro pode ser a mesma que o assaltante usará para executá-lo. Todos os especialistas no assunto afirmam que a melhor maneira de preservar sua integridade física é andar desarmado.

Por isso mesmo, a campanha do desarmamento foi prorrogada até o próximo dia 23 de junho. A expectativa do governo é que, pelo menos, mais 100 mil armas sejam entregues. Não custa lembrar que o cidadão que se desfaz das armas recebe indenização entre R$ 100 e R$ 300 reais. E o governo já reservou mais R$ 20 milhões do Orçamento deste ano para garantir as indenizações. Não há motivos para manter em casa uma arma que pode acabar nas mãos de uma criança ou de um bandido.

Caçar malfeitores é tarefa da polícia. À sociedade civil, cabe exercer sua plena cidadania e comparecer em massa às urnas para dizer um vigoroso não às armas e suas trágicas conseqüências. Desarmamento já!