Título: Além do Fato: Um papa de transição?
Autor: Pe. Jesus Hortal
Fonte: Jornal do Brasil, 20/04/2005, Internacional, p. A14

Perante a eleição do novo Papa, Bento XVI, não são poucos os que afirmam que ele será um ¿Papa de transição¿. Não me parece que seja esse o qualificativo mais apropriado. Não teremos, certamente, um pontificado longo, como foi o de João Paulo II. Mas isso não significa que não tenha um caráter próprio, ou que seja um simples tempo de espera. Ao contrário, quem conheceu o Cardeal Joseph Ratzinger sabe muito bem que ele não é uma pessoa que se conforme em desempenhar um papel secundário. Tentará, é verdade, ao mesmo tempo, evitar qualquer ruptura com a época imediatamente anterior e dará uma marca muito pessoal ao seu pontificado. A sua formação e a sua atuação como professor e como intelectual católico nos fazem prever um forte ensinamento doutrinário.

Ao mesmo tempo, o seu caráter humano, afável, dialogante, estão a nos indicar que buscará o calor humano das multidões, possivelmente com um estilo diverso do de João Paulo II, mas não com menor entusiasmo. É muito significativo que o primeiro evento confirmado pelo novo Papa seja o encontro mundial da juventude, no mês de agosto, na cidade alemã de Colônia. Certamente, Bento XVI estará, naquele mês, entre os jovens, banhando-se, por assim dizer, em juventude.

Um outro ponto em que esperamos que o novo Papa se destaque é o diálogo com outras confissões cristãs. Como Prefeito para a Doutrina da Fé, Ratzinger interveio ativamente na assinatura da Declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica Romana sobre a justificação por fé e graça. O relacionamento entre católicos e luteranos é algo que ele viveu na sua Bavária natal e que deve marcar uma das linhas do seu pontificado.

Por outro lado, os comentários de muitos jornalistas sobre o ¿conservadorismo¿ do Cardeal Ratzinger ¿ hoje Bento XVI ¿ ignoram a sua obra teológica, que entusiasmava os jovens seminaristas, quando ele era professor universitário. E ignoram também a interessantíssima e rica problemática dos estudos feitos pela Comissão Teológica Internacional, enquanto o novo Papa a presidia na sua qualidade de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

De modo especial, o olhar sobre as grandes religiões do continente asiático indica a ânsia de encontrar a verdade em qualquer lugar onde ela se encontre.

Será Bento XVI um Papa de transição? A minha resposta é definitivamente não. Será, sim, um Papa que deixará uma marca muito pessoal na História.