O Globo, n. 31595, 07/02/2020. Mundo, p. 29

Reality show



Em uma espécie de espetáculo celebratório de sua absolvição pelo Senado no processo de impeachment, o presidente americano e candidato à reeleição Donald Trump atacou o julgamento, chamado por ele de “uma desgraça”, que “nunca deveria acontecer com outro presidente”, e disse que passou por “um inferno”. Ele também insultou seus opositores democratas, que qualificou de “inimigos”.

Na Casa Branca, com transmissão ao vivo pela TV, Trump falou por mais de uma hora ontem, em uma sala lotada de aliados: parlamentares republicanos, integrantes do primeiro escalão do governo e membros da equipe que o defendeu no Senado, que várias vezes o interromperam com aplausos. Ele abandonou o discurso preparado e improvisou, deixando claro que não era um pronunciamento presidencial, mas sim uma celebração. Após suas primeiras frases, ele levantou um exemplar do Washington Post, jornal muitas vezes criticado por ele, que trazia a manchete “Absolvido”.

O republicano usou um tom coloquial, parecido com o de seus atos de campanha, citou ideias postadas no Twitter e até falou um palavrão, “bulshitt” (babaquice), ao citar o processo que investigou a interferência russa na eleição de 2016. Mas o conteúdo foi bem claro: todos que apoiaram o impeachment são mais que adversários, são inimigos. Citando nominalmente o deputado democrata Adam Schiff, uma das figuras centrais do processo, o chamou de “corrupto”. Sobre Nancy Pelosi, presidente da Câmara, reconheceu ter dito “algumas coisas” sobre ela, mas que “tudo era verdade” e que ela era “uma pessoa horrível”.

Repetindo argumentos da defesa, voltou a se declarar inocente, não apenas no processo sobre suas relações com a Ucrânia, objeto do impeachment, mas também na investigação, concluída no início de 2019, sobre a influência russa na campanha à Presidência. Não poupou elogios a figuras como Mitch McConnell, líder da maioria do Senado e que atuou de maneira intensa para evitar o prolongamento do julgamento, bloqueando a convocação de testemunhas adicionais, como queriam os democratas e alguns republicanos. Para ele, o caso foi uma “batalha”, uma “guerra”, e seus aliados agiram como “soldados”.

— Hoje é o dia de celebrar, de homenagear esses soldados — afirmou, antes de citar alguns dos aliados, abraçando ao final a filha Ivanka e a mulher, Melania.

Comparação com Obama

Trump ainda fez uma comparação hipotética com o ex-presidente Barack Obama, em uma fala que rapidamente viralizou nas redes sociais de apoiadores:

— Foi diabólico, foi corrupto, foi algo parecido com o que fazem policiais sujos. Se isso [impeachment] tivesse acontecido ao presidente Obama, muitas pessoas estariam na cadeia agora.

Antes da celebração na Casa Branca, Trump atacou todos que vê como adversários, referindo-se, de maneira velada, a Pelosi e ao senador republicano Mitt Romney, o único do partido governista que votou pela condenação do presidente por abuso de poder na sessão de quarta-feira.

— Não gosto de pessoas que usem sua fé como justificativa para fazer o que sabem que é errado. Tampouco gosto de gente que diz “vou rezar por você”, mesmo quando sei que eles não o farão — disse em discurso durante um tradicional café da manhã oferecido por parlamentares a lideranças políticas, sociais, econômicas e religiosas.

Pelosi é uma católica praticante, e em dezembro disse que “não odiava Trump” e que rezaria por ele. Ontem, ao comentar as declarações do republicano, ela voltou a dizer que ele ainda aparece em suas orações porque está “perdido” em relação à Constituição e aos valores dos EUA. Pelosi também estava no evento, a poucos metros do presidente. Os dois não se cumprimentaram.

— Ele fala sobre coisas sobre as quais sabe pouco: fé e oração — completou Pelosi.

Romney, que é mórmon, afirmou, ao justificar seu voto pela condenação do presidente no Senado que foi compelido pela fé. Ele não comentou a declaração de Trump.

O presidente se colocou como alguém perseguido pelo sistema desde a campanha presidencial de 2016, culminando no processo de impeachment. Também falou sobre como ele e sua família passaram por dificuldades ao longo do processo, chamado por ele de “terrível calvário”. Para Trump, tudo foi um esforço “para destruir o país”.

Regra violada

Ao se mostrar como vítima e celebrar sua absolvição, lançando ataques contra os adversários, Trump quebrou uma regra não escrita do evento,cuja ideia central é o diálogo. O tema este ano era justamente “como amar seus inimigos”.

— Jesus, no Evangelho de Mateus, não disse “tolere seus inimigos”, ele disse “ame seus inimigos” — afirmou Arthur Brooks, professor da Universidade Harvard, que fez o discurso de abertura.

Trump, que minutos antes entrou no salão principal levando dois jornais cujas capas diziam “Absolvido”, disse que “estava aprendendo” a tolerar os inimigos, mas que “ainda era difícil”.

Na véspera foram divulgados os números da audiência do seu discurso sobre o Estado da União, na terça-feira. De acordo com o Instituto Nielsen, o pronunciamento foi assistido por 37 milhões de pessoas por meio de 12 redes nos EUA, uma queda de 21% em relação a 2019, quando 45,6 milhões acompanharam o discurso.

O recorde do presidente continua sendo o discurso de 2017, que oficialmente foi chamado de Declaração Conjunta ao Congresso, proferida pouco mais de um mês depois de sua posse. Na época, a audiência média foi de 48 milhões de pessoas.