O Estado de S. Paulo, n. 46578, 27/04/2021. Metrópole, p. A10
Queiroga vê risco de falta de 2ª dose da Coronavac
Mateus Vargas
Fabiana Cambricoli
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse ontem que há preocupação quanto à
falta da segunda dose da vacina Coronavac. Em
audiência pública no Senado, ele citou atrasos na entrega de novos lotes do
imunizante contra a covid-19 com envase pelo Instituto Butantan.
Sem entrar em detalhes, avisou que divulgará nota técnica sobre a aplicação de
doses nesse cenário de restrição do produto.
No
fim de março, o governo federal passou uma orientação segundo a qual não era
mais preciso reservar metade dos lotes da Coronavac
para garantir a segunda dose. No último dia 13, a Saúde revelou que mais de 1,5
milhão de pessoas não retornaram para receber o complemento da vacinação dentro
do prazo. "Agora, em fase de retardo do insumo, há dificuldade com essa
segunda dose", admitiu.
Segundo
Queiroga, a próxima entrega da Coronavac só deve
ocorrer em dez dias. O ministro citou decisão da Justiça para garantir o
estoque da vacina em João Pessoa (PB). "Só que, se todos judicializarem, não há doses para todo mundo",
afirmou. O ministério tem cobrado que municípios se organizem para garantir que
o intervalo entre as aplicações das vacinas seja respeitado. Segundo
levantamento do dia 16 da Confederação Nacional de Municípios, cerca de 1.426
cidades não reservaram a segunda dose da vacina.
Na
mesma reunião, o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, disse que
o ministério tem se esforçado para equilibrar o envio de vacinas para cada
etapa da imunização. "Estamos monitorando os Estados com déficit da
segunda dose. Hoje o que estamos 'devendo' é relativamente pouco", afirmou
Medeiros. "O quantitativo para repor está dentro do prazo (da 2.ª
aplicação)", completou.
Alterações. Queiroga
também disse aos senadores que mudanças feitas por prefeitos e governadores na
ordem de prioridades da vacinação atrapalham a campanha nacional elaborada pelo
ministério.. Ele pediu respeito à lista elaborada pelo
Programa Nacional de Imunizações (PNI). "Tudo o que não precisamos neste
momento é de polêmica", disse. Essa diferença tem sido usada por
apoiadores do presidente Jair Bolsonaro para criticar governadores e prefeitos.
O
secretário executivo da Saúde, Rodrigo Cruz, disse na audiência que o grupo
prioritário (cerca de 77,2 milhões de pessoas) deve receber a segunda dose até
setembro. Na primeira quinzena de junho, todo esse grupo já terá recebido a
primeira vacina. Assim, a partir desse período existe uma expectativa de que o
restante da população já comece a receber as vacinas. Segundo Cruz, 2,5 milhões
de doses da Pfizer devem ser entregues em maio.
O
Butantan confirmou o atraso no envio das doses da Coronavac. Das 46 milhões cuja entrega estava prevista até
abril, 4,6 milhões não poderão ser entregues no prazo e ficam para o início de
maio. O atraso se deve à demora no envio do Ingrediente Farmacêutico Ativo
(IFA), vindo da China. Prevista para desembarcar em 9 de abril, a matéria-prima
chegou no dia 19. "Os insumos recebidos no último dia 19/4 já foram
envasados e novo lote com mais 5 milhões de vacinas será entregue a partir de
dia 3", disse o Butantan.
O
instituto reafirmou a previsão de entregar 100 milhões de doses até o fim de
agosto. Quanto ao impacto do atraso das segundas doses, disse que o ministério
é o "responsável por planejar e coordenar a campanha de vacinação" no
País e pela definição do "esquema vacinal, definição de públicos-alvo e de
intervalos entre as doses".
O
ministério foi questionado sobre as datas originalmente previstas para entrega
das doses da Coronavac, mas não respondeu. Reforçou
sobre a divulgação de nota técnica sobre o assunto.
Máscaras. O
ministro foi questionado por senadores sobre aglomerações promovidas pelo
presidente Jair Bolsonaro, além da falta de campanha eficaz de comunicação
sobre o uso de máscara e o distanciamento social. Na resposta, ignorou o comportamento
do presidente e disse que as campanhas devem ser ampliadas.
Queiroga
esteve na sessão por cerca de uma hora. Em seguida, deixou auxiliares
respondendo a perguntas dos parlamentares. De acordo com o presidente da
comissão mista, senador Confúcio Moura (MDBRO), o ministro saiu para se reunir
com a Pfizer. O governo negocia 100 milhões de vacinas dessa empresa para
entrega em 2022.
Tirando
o atraso
"Agora,
em fase de retardo do insumo, há dificuldade com essa segunda dose."
Marcelo
Queiroga
Ministro
da Saúde
"O
que estamos devendo é relativamente pouco."
Arnaldo
Medeiros
Secr.
Vigilância em Saúde