Título: Governo parte para ofensiva contra taxas altas
Autor: Sérgio Prado, Sérgio Pardellas e Tina Vieira
Fonte: Jornal do Brasil, 27/04/2005, País, p. A2
Sem alarde, Planalto articula medidas para impulsionar economia e facilitar reeleição
Ciente de que o desempenho da economia perdeu fôlego e que não há mais espaço para o crescimento da taxa de juros no país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu partir para a ofensiva. Desde o início da semana, está em curso um movimento dentro do governo pela redução das atuais taxas e pelo alívio nos tributos como forma de dar impulso aos investimentos.
Ontem pela manhã, o BNDES anunciou a redução dos juros cobrados pelo banco, a facilitação na liberação de crédito e a ampliação do limite de capital de giro para as micro, pequenas e médias empresas. No início da noite, o governo anunciou que em até dez dias saem medidas de suspensão total dos tributos federais para exportadores.
- Os investidores não se conformam em ter de pagar impostos por antecipação. Por isso, a decisão do governo é essencial para o crescimento - afirmou Armando Monteiro Neto, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A desoneração dos investimentos está na proposta de reforma tributária, que depende de aprovação na Câmara. Entretanto, o Executivo resolveu apressar o processo que pode ser por medida provisória, a ser decidida nos próximos dias.
Também fazem parte da ação do governo, os discursos de Lula contra a atitude comodista do brasileiro ''que não levanta o traseiro para pesquisar taxas de juros'' e de continuar consumindo muito mesmo com a alta da Selic para 19,5%. Embora revestidas de polêmica, as declarações de Lula tiveram um público-alvo definido: a população. A intenção do governo é mobilizar a sociedade contra os juros altos e dar a idéia de que nesta ''guerra'' governo e consumidor estão do mesmo lado.
A decisão de se resolver as questões que estariam, na avaliação do governo, represando a economia foi tomada em recente reunião no Planalto com a presença de Lula e ministros do núcleo político.
Se não pode influir nas decisões do Copom, decidiu-se que o melhor caminho é buscar atalhos para sair desse chamado círculo vicioso. Dessa forma, ao mesmo tempo em que conclama a população a sair da inércia, o governo anuncia medidas práticas para amortizar o aumento da taxa Selic em diversos setores da sociedade.
Afinado com o chefe, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, em discurso para empresários, repetiu o discurso de mobilização.
- As pessoas precisam se levantar e tomar atitudes.
Ministros e líderes entendem que o governo está encurralado pela imobilidade no Congresso, onde não tem uma base política confiável, e pela falta de controle sobre as decisões do Banco Central. Por isso, precisa mostrar que não está parado.
O presidente repetiu a seus auxiliares que não entende o porquê do último aumento dos juros, anunciado semana passada. No atual patamar de 19,5%, a Selic atinge o nível mais alto desde setembro de 2003. Há uma preocupação crescente no governo de que as medidas do BC coloquem por terra o maior capital político acumulado por Lula nos dois anos de governo: o crescimento econômico.
Quando disse, ontem, que o aumento da taxa básica de juros não está prejudicando o crescimento econômico do país, na verdade, o presidente Lula queria mandar um recado ao governo: inibir o crescimento econômico é justamente o que não quer que aconteça.
- O governo chegou a conclusão de que nada adianta se o juro continuar subindo. O temor é que a população pague caro e respingue no projeto de reeleição em 2006 - afirmou um ministro que conversou com o presidente nos últimos dias.
Outros fatores ajudaram a acender o sinal vermelho no Planalto. Na última pesquisa CNT/Sensus, divulgada semana passada, a popularidade do presidente caiu seis pontos. Na segunda-feira, em encontro com o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Luiz Gushiken, um grupo de mais de 100 empresários deu nota 3,5 para o desempenho do governo em matéria de eficiência e gerenciamento.
Semana passada, numa tentativa de sacudir o governo, o presidente reuniu ministros da área social para cobrar resultados. Na ocasião, Lula exigiu um cronograma para as áreas de educação, saúde, reforma agrária, desenvolvimento social e trabalho.