Título: Lula ignorou e contrariou o pensamento dominante
Autor: Israel Tabak
Fonte: Jornal do Brasil, 27/04/2005, País, p. A4
Pesquisa mostrou que 75% dos brasileiros são a favor do controle de preços
Uma pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes), envolvendo várias instituições, realizada logo após a eleição de 2002, se propôs a saber como era a ideologia do brasileiro. Uma das perguntas indagava se o entrevistado era a favor do controle de preços, pelo governo, de todos os produtos vendidos no Brasil: 75% responderam afirmativamente. A pesquisadora Luciana Fernandes Veiga, do Laboratório de Comunicação Política e Opinião Pública do Iuperj, empresta este exemplo da pesquisa para mostrar que o brasileiro é francamente favorável à interferência do Estado nas questões da economia que o afetam diretamente. Por isso - diz a especialista - o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ''errou a mão'' ao avaliar que o comodismo da classe média é o grande responsável pelas altas taxas de juros que se vê obrigada a pagar.
- Com essa declaração, o presidente foi contra o imaginário popular que exige também a presença do governo no controle dos preços e taxas praticadas pelos bancos. O presidente foi infeliz ao jogar o problema no colo do cidadão, ainda mais quando é sabido que as altas taxas de juros não diferem muito de banco para banco, incluindo os oficiais.
De acordo com a pesquisadora, quando Lula foi eleito havia a expectativa de que ele interferisse mais na economia do que o seu antecessor, atuando como uma espécie de paizão que protegesse a população contra juros altos, desemprego e outras intempéries.
Um outro aspecto que caracteriza a ''bola fora'' do presidente, conforme a expressão de Luciana Veiga, foi a forma pela qual a idéia foi expressa.
- Desta vez ele foi mais vulgar do que em episódios anteriores. Extrapolou o limite e pode ter afetado sua imagem, passando por alguém insensível, particularmente no momento em que a classe média está às voltas com o Leão do Imposto de Renda. Além disso, sugeriu estar desinformado a respeito do assunto abordado, parecendo ignorar a burocracia que significa trocar de banco. É como se isso significasse a mesma coisa que trocar de sapato - comentou.
Luciana Fernandes Veiga avalia que no episódio das taxas de juros, Lula usou a mesma estratégia de comunicação que vem dando certo.
- Ele se apropriou de uma percepção popular , desta vez a de que o brasileiro é acomodado. O presidente pode ter partido da premissa correta mas concluiu de forma errada, em desacordo com o que pensa a classe média e a maioria da população.
A pesquisadora do Iuperj diz que, de uma forma geral, o presidente tem se comunicado bem com a população, sobretudo em virtude da percepção de que a economia está sob controle.
- Não é bem uma aceitação, é uma tolerância, porque o povo acredita que o presidente manteve esse controle mesmo passando por grandes dificuldades e pressões. Há, por exemplo, a idéia de que o Congresso atrapalha Lula.
Segundo Luciana Fernandes Veiga, Lula tem facilidade de comunicação com as pessoas simples, usando raciocínios que fazem parte do senso comum e se utilizando de expressões do dia-a-dia.
- Ele não cita grandes relatórios e estudos para chegar onde quer. Pensa e fala do mesmo jeito que as pessoas comuns. Quando discorreu sobre juros, na segunda-feira, tentou seguir o mesmo caminho, só que dessa vez não deu certo - avalia.