Título: Bolívia: ex-presidente será julgado
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Fonte: Jornal do Brasil, 15/10/2004, Internacional, p. A-9
O Congresso boliviano autorizou, na madrugada de ontem, a abertura de um processo na Corte Suprema contra o ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada e seus 15 ministros, suspeitos de serem responsáveis pelas 56 mortes de civis durante a convulsão social que, em outubro de 2003, culminou com a renúncia do então líder.
A sessão histórica, que durou 12 horas, foi acompanhada pelos parentes das vítimas e ativistas de direitos humanos. Eles organizaram a campanha ''Goni em Chonchocoro'', em alusão ao apelido de Lozada e a uma conhecida penitenciária.
A demora na sessão se deveu à derrota na primeira votação: dos 157 congressistas, 103 apoiaram o julgamento de Lozada e de apenas dois ministros, o da Defesa, Carlos Sánchez Beltrán e o do Governo, Yerko Kukoc. Apesar de expressivo, o número não chegava aos 2/3 da Câmara necessários para a aprovação. Mais tarde, sob pressão da opinião pública, que ameaçava fechar o Parlamento, a pauta de juízo contra o ex-presidente e todos os 15 ministros foi aceita com 126 votos, 21 a mais que o necessário.
Críticos do ex-presidente, principalmente o partido esquerdista Movimiento al Socialismo (MAS), o acusam de ter ordenado que a Força Pública reprimisse com violência os protestos. Adepto da economia de livre mercado e apoiado pelos EUA, Lozada planejava seguir em frente com a exportação de gás natural ao Chile, tradicional desafeto boliviano. Descontentes com a medida, com a economia e pedindo a nacionalização do recurso energético, os bolivianos protestaram por dias. Vários morreram em enfrentamentos com a polícia.
- Este triunfo é de todo o povo boliviano, que luta por um futuro melhor. É uma homenagem aos mártires da guerra do gás que foram massacrados há um ano por Goni - comemorou o deputado e líder nacional do MAS, Evo Morales.
Para o atual mandatário da Bolívia, Carlos Mesa - que era vice de Lozada e assumiu após a renúncia - a decisão ''fortalece a democracia e renova a fé dos cidadãos nas instituições''.
Alguns grupos civis pediram que Mesa fosse incluído no juízo, mas o Congresso entendeu que ''um vice-presidente não cumpre funções relacionadas ao Executivo''.
Este é o terceiro juízo de responsabilidade autorizado no país nos últimos 20 anos, mas Lozada será o primeiro presidente eleito democraticamente a sentar no banco dos réus.