Título: E-mails complicam Kroll
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 27/04/2005, Economia & Negócios, p. A23

Os espiões da Kroll Associates não conseguiram apagar todas as provas que os incriminam. Na troca de mensagens eletrônicas, deixaram vários rastros de bisbilhotagem telefônica e bancária, embora tenham tentados eliminá-los.

No dia 3 de junho de 2003, a espiã Júlia Marinho Leitão da Cunha escreveu a um dos diretores da Kroll no Brasil, Eduardo Gomide. O assunto era ''Du Pont''. Júlia relata que na última reunião com os ''senhores Furini e César Garcia'' foi solicitado à Kroll ''informação bancária e telefônica'' da empresa Terrazul. Na sua resposta, Gomide pede que Júlia faça o orçamento para obter as informações e adverte a subordinada em tom de intimidade: ''Criança, evite determinadas palavras nos e-mails''.

A Kroll tem uma escala de preços de pagamento de informações telefônicas e bancárias. Em um e-mail sobre pagamento ao sub-contratado Jorge Lordello, há uma tabela de valores que ele cobra por cada operação. O e-mail foi enviado por Anderson Marques para Fernando Tacchella e Washington Moura. A tabela mostra que o ''celular Ari Natalino da Silva'', referência ao dono do Grupo Petroforte, custa R$ 5 mil. O ''telefone fixo Thunder Factoring Fomento Comercial'' custa R$ 3 mil. Na resposta, Tacchella alerta para que Anderson nunca coloque detalhes de despesas em um e-mail e pede ao colega para que apague a mensagem.

Washington Moura, que recebeu cópia oculta do e-mail com o pagamento de Lordello, aparece em outras mensagens trocadas por diretores da Kroll. Moura escreveu uma mensagem ''confidential'' para todos os diretores da Kroll, entre eles Eduardo Gomide e Vander Giordano, alertando para não criarem vínculos formais - a exemplo de recibo de pagamento, com os ''sub-estatutários'' - expressão que a Kroll usa para identificar os servidores públicos que vendem informações sigilosas. O e-mail de Moura versava sobre o desligamento de uma sub-estatutária, Sueli Leal, referência à policial civil que repassava dados aos ''colaboradores'' da Kroll.

Na resposta à mensagem, Eduardo Gomide diz que os sub-estatutários ''são muito, muito importantes'' para a Kroll. Gomide alerta que a empresa não pode ''descartar'' um sub só porque alguns trabalhos não foram plenamente satisfatórios ou porque não se enquadram no esquema de pagamentos da empresa. Gomide pede à funcionária Karina que prepare um documento listando as particularidades, qualidades, ''preços'', defeitos e performance dos sub-estatutários ''nos últimos casos''.

Em um trecho do e-mail, Gomide diz que é necessário estabelecer regras ''para a melhor utilização'' dos sub-estatutários e que é preciso ''racionalizar a utilização'' para ''extrair'' o melhor que cada funcionário público pode oferecer à Kroll.