Título: Resgate cinematográfico para chefe deposto
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Fonte: Jornal do Brasil, 25/04/2005, Internacional, p. A7
Uma operação cinematográfica, organizada pelas Forças Aéreas do Equador e do Brasil, foi posta em ação na madrugada de ontem para o traslado do presidente deposto Lucio Gutiérrez ao Brasil.
A rede de TV equatoriana Acuavisa mostrou imagens de um homem que seria Gutiérrez saindo da casa do embaixador brasileiro em Quito, Sérgio Florêncio, às 4h, com o rosto coberto por uma balaclava e usando um capacete da polícia. A intenção era fazê-lo passar por um policial, para que pudesse deixar a embaixada sem ser notado pelos manifestantes que faziam vigília em frente à casa.
A van que o esperava seguiu para a base aérea militar de Quito, de onde voou de helicóptero até o aeroporto militar em Latacunga, a 80 quilômetros ao Sul da capital. Lá, o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) o esperava.
- Foi uma viagem muito emocionante. Não foi uma operação de guerra, e sim humanitária - declarou, com lágrimas nos olhos, o brigadeiro Joselí Parente Camelo, coordenador da missão da FAB.
Segundo o brigadeiro, houve muita emoção ainda na embaixada, quando Gutiérrez, a mulher, Ximena Bohórquez Romero, e a filha mais nova, Viviana Estefanía, se despediram da filha mais velha, Karina Ximena, que ficou em Quito, onde faz colégio militar.
A bordo do Boeing 737, onde viajavam também 12 tripulantes e dois diplomatas, a família Gutiérrez pôde descansar depois de passar quatro dias sofrendo a pressão dos manifestantes.
- Eles agradeceram muito ao presidente Lula e a toda a população brasileira - acrescentou o oficial.
Desde a quinta-feira, o avião da FAB esperava instruções em Porto Velho. A embaixada brasileira já havia recebido o salvo-conduto, concedido pelo novo presidente, Alfredo Palacio, na manhã de sábado, mas manteve segredo para não incitar os manifestantes. Brasília precisava do documento para retirar Gutiérrez do país dentro da legalidade e com segurança.
Apesar de respaldada pela lei, a operação de resgate foi cercada de tensão e incerteza. No início, havia duas alternativas de vôo para a aeronave brasileira: iria para Latacunga ou para a cidade costeira de Guayaquil. Apenas depois da decolagem, na noite de sábado, a decisão final foi comunicada.
- Estávamos em contato constante com nosso adido aeronáutico (da embaixada de Quito), que a cada meia hora nos informava se devíamos prosseguir ou dar meia volta - contou Camelo. - Uma hora antes da aterrissagem, às 4h30 de Quito, recebemos a notícia de que a família Gutiérrez havia deixado a embaixada e estava a caminho de Latacunga. Foi quando finalmente soubemos onde deveríamos pousar.
No aeroporto, a ordem era não aparentar qualquer movimento. Ele estava fechado e com todas as luzes apagadas.
- A iluminação foi ligada apenas um minuto antes de nossa aterrissagem, e voltaram a se apagar um minuto depois de nossa partida. Estivemos em chão de cinco a 10 minutos, tempo de desligar os motores, baixar a escada, subir as malas e embarcar os passageiros.
O avião fez uma parada em Rio Branco e chegou a Brasília às 13h30.