Estado de S. Paulo, n. 46613, 01/06/2021. Política, p. A4

Nise Yamaguchi depõe sobre ‘gabinete paralelo’

Paula Reverbel


Defensora da prescrição de cloroquina para pacientes com covid19, a oncologista e imunologista Nise Yamaguchi será questionada, hoje, na CPI da Covid, sobre a existência de uma espécie de “gabinete paralelo” no comando das ações de enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

Com extenso currículo no campo da oncologia clínica, a médica surpreendeu colegas, há pouco mais de um ano, com sua postura pró-cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra o coronavírus, capaz de provocar efeitos colaterais adversos. Próxima de Jair Bolsonaro, ela chegou a ser cotada para assumir o Ministério da Saúde. O presidente é um entusiasta do chamado tratamento precoce com o uso do remédio, indicado para malária e amebíase, entre outras doenças.

Formada em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), em 1982, ela completou a residência em imunologia no Hospital das Clínicas, em 1988, e realizou vários cursos no exterior.

“A dra. Nise não foi chamada como especialista, mas, sim, como testemunha, uma vez que ela tem participação em diversas reuniões daquilo que está sendo chamado de ‘gabinete paralelo’ da Saúde. Inclusive reuniões com a presença do próprio presidente”, afirmou o senador Alessandro Vieira (Cidadania-se) ao Estadão. “Ela pode reportar como essas reuniões transcorriam, quais eram os temas, quem organizava e eventualmente financiava esses encontros.”

O depoimento de Nise foi pedido pelos senadores Marcos Rogério (DEM-RO) e Eduardo Girão (Podemos-CE), aliados do governo, e ganhou destaque especialmente após ela ser mencionada pelo diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, na sessão da CPI do último dia 11. Segundo ele, Nise defendeu a alteração da bula da cloroquina, de modo a indicar o medicamento como tratamento para covid-19. A mudança seria feita por decreto presidencial, mas Barra Torres se negou a acatar a demanda que contrariava as normas da Anvisa.