O Estado de S. Paulo, n. 46615, 03/06/2021. Economia &
Negócios, p. B2
Os riscos para o avanço do PIB
Celso
Ming
Já sabemos que o avanço do PIB do primeiro trimestre sobre o anterior, de 1,2%,
surpreendeu os analistas e pessoas comuns. Quase ninguém fora dos segmentos do
agronegócio e do setor exportador tinha a percepção de que a economia vinha bombando para fechar o ano, provavelmente, ao redor dos 5%
ao ano.
Ao
contrário, toda a mídia apontava para os limitadores de um forte crescimento.
Observações de entidades de classe e de economistas de que o consumidor está
sumido, de que há milhares de empresas falindo ou, simplesmente, fechando suas
portas e de que a taxa de desocupação de 14,7% no primeiro trimestre deste ano,
ou 14,8 milhões de desempregados no País, mais os 6 milhões de desalentados
explicavam demanda e produção mais fracas.
No
entanto, "la nave va",
como diz o título do belo filme de Fellini. Com base nesse resultado, os
analistas apressaram-se a rever para cima suas projeções de crescimento do PIB
do Brasil em 2021. O Goldman Sachs e o BNP Paribas,
por exemplo, passaram a trabalhar com avanço do PIB de 5,5%; o Bank of America, com 5,2%; o Citi, com 5,1%; o Itaú, com 5,0%; o Credit
Suisse e o J.P. Morgan, com 4,9%; o Bradesco, com
4,8%.
Os
fatores que contribuem para a obtenção desse resultado positivo são conhecidos:
é o excelente desempenho da economia global; a grande procura no exterior por
commodities metálicas e alimentares; e o auxílio emergencial distribuído pelo
governo que, mesmo a conta-gotas, ajuda o consumo.
Também
não se pode desprezar o efeito vacina: são quase 50 milhões os imunizados pelo
menos com a primeira dose. Outros 15 milhões se recuperaram da doença e,
portanto, já carregam anticorpos. Cerca de 65 milhões estão praticamente fora
do alcance do coronavírus e isso começa a fazer
diferença no mercado de trabalho e no consumo.
A
economia mostra mais resiliência do que a esperada. Mas convém examinar o que
pode atrapalhar.
Como
o consumo (tanto das famílias como do governo) caiu 1% no primeiro trimestre,
em relação ao último trimestre de 2020, boa parte da recuperação se deve à
formação de estoques. Uma das explicações é relativamente simples. Nos últimos
40 anos, as empresas (e não só as indústrias) aprenderam a trabalhar no regime just in time, pelo qual o suprimento de matérias-primas,
peças, componentes e produtos acabados é feito à medida que requerido na
produção ou na montagem. Com isso, reduzem-se substancialmente os custos com
formação de estoques. Ora, a pandemia interrompeu grande parte desses fluxos.
Fontes de suprimento, navios, aviões, funcionamento dos portos e aeroportos
tiveram de paralisar ao menos temporariamente suas atividades. Faltou e
continua faltando muita coisa. Essa foi, por exemplo, a principal razão pela
qual a Volkswagen foi obrigada a paralisar suas atividades em duas de suas
unidades por 10 dias a partir de 7 de junho. Uma vez retomadas as atividades,
grande número de empresas passou a operar não só com força total como, também,
voltou a empilhar estoques. Uma vez regularizadas as cadeias de produção e
distribuição, a atividade econômica deverá reduzir a atual velocidade de
recuperação.
O
outro enorme limitador é o desemprego recorde, já mencionado. Quem imagina que
a retomada reabrirá postos de trabalho fechados durante a pandemia deve
desconfiar dessa hipótese. As empresas aprenderam a trabalhar com menos gente,
seja porque reorganizaram ou transferiram parte de suas linhas de produção,
seja porque aumentaram o uso de tecnologia poupadora de mão de obra. Se o
emprego continuará apertado, segue-se, também, que a demanda continuará por
enfrentar novas limitações.
E
tem a inflação que, neste ano, irá para algo como 5,5% ou 6,0%. Até há algumas
semanas, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, focava suas
advertências no caráter temporário da alta. Agora, mudou de tom. Prefere
admitir que a inflação aumentará. Devem puxá-la as tarifas de energia, os
preços dos combustíveis e os dos alimentos que têm tratamento de commodities.
Inflação é redução do poder aquisitivo e menos avanço do PIB.
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Comentarista de Economia