Título: Chileno é eleito em meio a crises
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Fonte: Jornal do Brasil, 02/05/2005, Internacional, p. A7
Socialista Insulza será eleito hoje secretário geral da organização com o desafio de enfrentar a situação no Equador e no Haiti
WASHINGTON - O chanceler socialista chileno, José Miguel Insulza, será eleito hoje, em Washington, para o cargo de secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), com grandes desafios pela frente. Entre eles, a delicada situação orçamentária da entidade e também as crises políticas no Equador e no Haiti. Outra questão são os focos de violência na Nicarágua e no Belize.
A eleição do ministro chileno, depois de acirrada disputa com o chanceler mexicano Luis Ernesto Derbez, que retirou sua candidatura, contribui para aplacar a crise em que a OEA está envolvida desde 15 de outubro do ano passado. Na ocasião, o costarriquenho Miguel Angel Rodríguez, ex-secretário geral da organização, foi obrigado a renunciar, menos de um mês após assumir o cargo, devido a acusações de corrupção.
A retirada de Derbez, cuja candidatura era apoiada pelos Estados Unidos, ocorreu na última sexta-feira, após uma reunião de uma hora com a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, durante a III Conferência da Comunidade das Democracias, no Chile. O governo de George Bush estava por trás inicialmente da candidatura do ex-presidente Francisco Flores, de El Salvador, único país da região que tem tropas no Iraque, mas este a retirou no dia 10 de abril, devido à falta de apoio.
Derbez e Insulza tinham empatado nas cinco rodadas de votação realizadas no dia 11 de abril na OEA o que levou vários especialistas a advertir sobre o perigo da divisão das Américas. Insulza era apoiado pelo Brasil, pela Venezuela, pela maioria da América do Sul e pelo Caribe, enquanto Derbez tinha o apoio dos EUA, do Canadá e da América Central. Antes da retirada do mexicano, fora cogitado o nome do ministro de Relações Exteriores do Canadá, Pierre Pettigrew, como possível terceiro candidato, assim como o do chanceler do Peru, Manuel Rodríguez Cuadros, e o do nicaragüense, Ernesto Leal.
- Os Estados Unidos reconheceram que seu candidato não podia ganhar e que, em vez de continuar lutando e dividindo a instituição e o hemisfério, seria melhor tentar chegar a um consenso - disse Peter Hakim, presidente do centro de análise independente Diálogo Interamericano.
- Tomara que o fato de que o candidato não ser o de sua preferência não signifique uma retirada do apoio à OEA - avaliou o analista Michael Shifter, professor da Universidade de Georgetown.
A decisão de Derbez foi elogiada por todo o continente, onde muitos governos consideram que a definição na OEA ajuda a manter e fortalecer a unidade regional.
- Houve uma verificação de consensos e depois um ato de generosidade - disse Insulza na reunião de sexta-feira em Santiago.
- Se formou uma nova correlação de forças na América Latina, que não tem necessariamente um sinal anti-americano, mas que busca evidenciar-se mundialmente como um pólo - afirmou a jornalistas ontem o vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel, durante uma marcha de trabalhadores em Caracas.
Rangel também disse esperar que a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, capte os ''novos sinais'' que a América Latina está enviando.
- Acredito que a recente visita de Condoleezza Rice a países da região, concretamente ao Brasil, ao Chile, à Colômbia e a El Salvador foi um fracasso, mas tenho a esperança de que ela, como uma mulher inteligente, capte o que estamos dizendo.
O Equador, apesar de a OEA ainda não ter reconhecido o novo governo, deve participar da votação.