Título: Bielsa confirma desavença
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Fonte: Jornal do Brasil, 04/05/2005, Internacional, p. A7
Ministro argentino das Relações Exteriores lista pontos de discordância com a atual diplomacia brasileira
BUENOS AIRES - O ministro de Relações Exteriores da Argentina, Rafael Bielsa, admitiu em entrevista ao jornal Clarín que o governo tem diferenças com o Brasil em vários assuntos internacionais e fixou como ''prioridade'' a solução dos impasses no Mercosul, que ambos os países integram junto com Uruguai e o Paraguai.
Bielsa especificou fatos que geraram diferenças com o Brasil, como a candidatura na Organização Mundial do Comércio (OMC):
- O Brasil lançou Luís Felipe de Seixas Corrêa. Mas nós comprometemos nosso voto ao candidato uruguaio, Carlos Pérez del Castillo, seis meses antes que fosse oficializada a candidatura de Corrêa. Quando Montevidéu ratificou a candidatura de Castillo, nós não fizemos nada além de honrar nossa palavra.
Outro ponto de discórdia foi a crise institucional no Equador, que levou à destituição do presidente Lucio Gutiérrez. De acordo com Bielsa, a Argentina defendera que a Organização dos Estados Americanos (OEA), o Grupo do Rio e a Comunidade Sul-Americana de Nações (CSN) se expressassem ''com uma só voz e um só conteúdo''.
- No mesmo dia, falei com (o chanceler brasileiro Celso) Amorim. Chegamos a um acordo, mas de tarde o comunicado que apareceu era da CSN, sem a intervenção do Grupo do Rio ou da OEA. O problema é que entre ter falado com Amorim e a divulgação do comunicado, telefonei para seis colegas da região, aos quais transmiti o que tinha sido decidido pela manhã - contou o argentino, que classificou a situação como ''descoordenada''.
Para Bielsa, o ponto mais grave de toda a confusão foi ''constarem no comunicado fatores que têm mais a ver com o lugar do emissário [o Brasil]do que com os problemas do Equador''.
- Neste momento, a Argentina tomou a decisão de remitir sua atuação ao âmbito hemisférico, que é a OEA, e daí não saímos - afirmou.
Ao mesmo tempo, o chanceler sustentou que sua ''prioridade'' é o cumprimento das medidas para eliminar as divergências comerciais no Mercosul propostas pelo ministro argentino da Economia, Roberto Lavagna, outro tema de tensão entre a Argentina e o Brasil.
- Até hoje este documento não recebeu uma resposta satisfatória. Nós vamos continuar insistindo, já que o que estamos pedindo não é nem mais nem menos que o cumprimento de uma norma, como ressalta o Tratado de Assunção (1991), que deu origem ao bloco - ressaltou.
O governo argentino pretende introduzir salvaguardas no bloco sul-americano para garantir uma proteção automática a setores da sua indústria onde possam surgir amplos desequilíbrios a favor do Brasil.
De acordo com o Clarín, também o Paraguai estaria insatisfeito com o modo como Brasília conduz atualmente a política externa.
- A chancelaria de Assunção classifica o Brasil como um atropelador - disse um diplomata paraguaio, nos corredores da OEA. - O que acontece é que o Brasil não se dá conta de que para ter liderança, os liderados devem aceitá-lo. E este não é o caso.
Em resposta à Argentina, o assessor de política externa do presidente brasileiro, Marco Aurélio Garcia, recorreu à metáfora esportiva, dando a entender que Buenos Aires trata a rivalidade entre os dois sócios do Mercosul como se fosse uma partida de futebol.
- As diferenças não podem ser resolvidas no La Bombonera ou no Maracanã - disse.
O assessor também queixou-se de o governo de Néstor Kirchner colocar as diferenças através do jornais.
- Estamos conscientes de que temos assimetrias. O governo brasileiro deseja que sejam resolvidas o mais rápido possível - admitiu, sobre as diferenças comerciais.
O assunto, no entanto, parece ainda estar longe de uma solução. O subsecretário de Integração Econômica da chancelaria argentina, Eduardo Sigal, disse que o país está disposto a estabelecer com o Brasil uma ''relação de sócios'', e não um ''contrato de adesão''.
- Precisamos um do outro. O Brasil também está se recuperando, mas queremos que isso não seja ao custo do desenvolvimento da Argentina - criticou Sigal. - Nosso governo tem opinião própria sobre todas as questões e também ambiciona um papel destacado no cenário mundial.