Título: Fox se aproxima de La Paz
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Fonte: Jornal do Brasil, 04/05/2005, Internacional, p. A8
Em meio às disputas entre Brasília e Buenos Aires, México fecha acordo 'estratégico' de energia com a Bolívia
AFP Foxe Mesa: o presidente mexicano defendeu uma saída para o mar para a Bolívia mas foi recebido com protesto
LA PAZ - Enquanto Brasil e Argentina discutem divergências e a liderança brasileira no continente, o México deu mais um passo para consolidar um papel importante na política sul-americana. Em visita de um dia à Bolívia, o presidente Vicente Fox, proclamou uma ''aliança estratégica para o futuro'' entre La Paz e o México. Fox e Carlos Mesa avançaram em um acordo para monitorar a venda de gás natural e a exportação inicial de 400 mil toneladas de soja para os mexicanos.
Além de firmar uma ''parceria estratégica energética'' com o governo boliviano, o presidente mexicano reclamou ao novo presidente da Organização dos Estados Americanos (OEA), o chileno José Miguel Insulza, uma passagem ao mar para La Paz, que demanda tal prerrogativa do governo vizinho em Santiago.
O México é um antigo rival do Brasil na região e já se mostrou contrário, por exemplo, ao pleito de Brasília a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
- Esta é a possibilidade de forjar juntos um destino de acordo com as necessidades e expectativas de nossos povos - declarou Fox ante ao Congresso boliviano, onde deputados do Movimento ao Socialismo (MAS), do líder cocalero Evo Morales, protestavam, usando uma balaclava (capuz), à maneira dos zapatistas, a guerrilha mexicana indígena.
O acordo de exportação de gás natural e soja para o México faz parte da consolidação de um Tratado de Livre Comércio que, apesar de estar há 10 anos em vigor, rendeu pouco a ambos os países. E nas conversas com Mesa, Fox deixou aberta a possibilidade ainda de que a Bolívia nutra, a médio prazo, as demandas mexicanas por madeira.
O México colocou à disposição de La Paz seu mercado de artesanatos, produtos agropecuários, frigoríficos e, em contrapartida, pediu que as empresas mexicanas continuem investindo nas explorações minerais na Bolívia.
- Temos perspectivas significativas e muitos temas no horizonte - celebrou Mesa.
México e Bolívia também se comprometeram em acordos de cooperação nas áreas de educação, Justiça, turismo e na promoção da mulher.
Em entrevista coletiva junto com o presidente boliviano, Carlos Mesa, no palácio de governo de La Paz, Fox expressou suas ''felicidades'' a Insulza, para ''que tenha uma gestão muito bem-sucedida''.
Segundo ele, o gesto do México de retirar a candidatura de seu chanceler, Luis Ernesto Derbez, para evitar a polarização da região, ''mostra claramente o que o continente espera dessa secretaria-geral e da OEA''.
- Esperamos que seja para a união, a solidariedade de todos os países latino-americanos e do continente inteiro - disse o presidente.
Fox lembrou que entre as obrigações do novo secretário-geral da OEA está a de dirimir conflitos.
- Este mesmo conceito, da unidade, nos leva justamente a trabalhar com veemência, com convicção e com paixão para apoiar esta reivindicação marítima - disse. - No final nos parece muito importante que exista uma resolução e que ela seja feita em harmonia, privilegiando e garantindo os interesses da Bolívia e do Chile - afirmou, sobre a passagem ao mar pleiteada por La Paz.
O governo boliviano reinvidica há décadas a Santiago um acesso soberano à costa do Pacífico, como compensação aos territórios litorâneos que perdeu em uma guerra no fim do século 19.
A eleição do ministro chileno do Interior, José Miguel Insulza, como secretário-geral da OEA, pôs em evidência as tensões regionais entre Chile de um lado, e Peru e Bolívia, do outro.
Na segunda-feira, o chanceler boliviano, Juan Ignacio Siles, e o embaixador peruano Alberto Borea manifestaram em Washington, durante a sessão plenária destinada a eleger o novo líder da OEA, um profundo descontentamento com a escolha de Insulza.