Título: População pede morte de jornalista
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Fonte: Jornal do Brasil, 06/05/2005, Internacional, p. A12

Editor é julgado por publicação de artigo que supostamente questiona a ascendência do profeta Maomé

Uma multidão pedia ontem em Cartum a pena de morte para o editor de um jornal sudanês pela publicação de um artigo que supostamente questionava a ascendência do profeta Maomé. As cerca de 2 mil pessoas que estavam diante do tribunal, carregando faixas com dizeres como ''Juízes do Sudão, defendam a honra do Profeta'' e entoando o slogan ''Morte ao apóstata'', tiveram de ser contidas por forças policiais, que usaram cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo.

Além do julgamento do editor, que é acusado de blasfêmia, o jornal Al Wifah terá de ser suspenso por três dias, a partir de sexta-feira. A sede do jornal, em uma empoeirada rua transversal, no centro da capital, está sendo vigiada por um grupo de soldados.

- A corte deve executá-lo, este não é um insulto a um homem comum, é um insulto ao profeta - disse um dos manifestantes.

Do lado de fora, a multidão, com alto-falantes, pedia às autoridades que levassem Taha Mohamed Ahmed para fora do prédio, para que pudesse matá-lo. Taha é um proeminente jornalista muçulmano, com fortes ligações com a organização Irmandade Muçulmana.

A polêmica começou quando o jornal publicou uma revisão de um manuscrito de mais de 500 anos, que coloca em dúvida a ascendência do profeta Maomé. Intitulado ''O Desconhecido na Vida do Profeta'', o manuscrito redigido por Maqreezi, um famoso historiador islâmico, diz que o pai de Maomé não era Abdula, como acreditam os muçulmanos.

O editor ainda não comentou as acusações, mas o jornalista Hamed Abdul-Latif, que trabalha no Al Wifaq, afirmou que foi um ''grande mal entendido''. Ele explicou que o texto não foi redigido pelo jornal, simplesmente publicado. Além disso, ao lado do material, Taha teria escrito um comentário, rejeitando a versão dos fatos exposta pelo historiador.

Mas o editor está mesmo em risco. De acordo com a Sharia, a lei islâmica vigente no país, os que renunciam ao Islã são condenados à morte.

Taha sequer recebeu o apoio do o Conselho de Imprensa do Sudão. Ali Shumi, presidente da organização, concordou que o material insultou o profeta e rejeitou as acusações sobre atentado à liberdade de imprensa.

- A liberdade de imprensa termina quando viola o respeito à religião. Não só o Islã - alegou. - Se dissesse tais coisas sobre Jesus Cristo receberia a mesma punição.

Com mais de 15 jornais diários no país, o governo de Cartum afirma que há liberdade de imprensa no país, mas na prática há uma forte censura, afirmam correspondentes.

O país é governado pela estrita Lei da Sharia Islâmica desde 1983, mas apenas nos últimos anos houve uma menor flexibilidade por parte dos tribunais na interpretação das normas. A introdução da Sharia foi responsável por provocar um conflito que durou 21 anos, entre o governo muçulmano e as comunidades de cristãos e animistas, no Sul do país.