Título: Cúpula discute negócios e política
Autor: Renata Moura
Fonte: Jornal do Brasil, 09/05/2005, País, p. A3
A capital brasileira pode se tornar o tão esperado ponto de encontro para grandes negócios entre latino-americanos e árabes. Paralelo à Cúpula América do Sul-Países Árabes, que vai reunir chefes de Estados e de Governo das duas regiões nos dias 10 e 11, iniciam-se hoje um seminário empresarial e uma feira de investimentos. O encontro vai reunir 830 empresários, destes 452 brasileiros, 190 árabes, e 188 dos outros onze países latino-americanos. A expectativa inicial, segundo o Itamaraty, não é de fechar negócios. - Não é pretensão fechar negócios. Queremos que se estabeleça uma nova rede de contatos, já que para nós, brasileiros, este comércio bilateral cresceu cerca de 50%, nos últimos dois anos. Hoje, negócios com o mundo árabe movimentam cerca de US$ 8,2 bilhões - afirmou o embaixador Mário Vilalva, chefe do Departamento Comercial do Itamaraty.
Há dez anos a corrente de comércio entre Brasil - Liga Árabe era de US$ 3,304 bilhões. Cifra que quase foi triplicada depois da visita de Lula àquela região em dezembro de 2003. Além do encontro do empresariado, segundo o Itamaraty, a cúpula - apesar de contar apenas com a presença de 15, dos 33 chefes de Estado e Governo convidados - poderá refletir futuros acordos econômicos e financeiros.
- Temos esperança de sacudir a geografia econômica mundial, dando ênfase maior nos debates sobre a cooperação comercial, econômica e de investimentos - avaliou o embaixador Pedro Motta, chefe do departamento responsável pelas relações com a África.
Fora a participação dos 15 chefes de Estado e Governo, a cúpula deve trazer para o país representantes da Comunidade Andina de Nações, do Conselho de Cooperação do Golfo, da Liga Árabe e da União do Tratado de Cooperação Amazônica. Motta previu com a vinda deles, o acordo de Livre Comércio entre Mercosul e o Golfo - que reúne os Emirados Árabes, Arábia Saudita, Kuwait, Omã, Catar e Bahrein - deve ser assinado até quarta-feira. Do ponto de vista político, a cúpula pode acirrar os ânimos de alguns participantes.
- Sabemos que não é de nossa alçada resolvermos o problema mundial, mas é claro que vamos levar alguns assuntos políticos pendentes da agenda internacional para a mesa de debates - garantiu.
Sem detalhar quais assuntos políticos serão tratados, Motta adiantou que o presidente Luis Inácio Lula da Silva deve conduzir de maneira ''positiva e consensual'' o debate de grandes temas, como a questão da Palestina, do Iraque e a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
- Temos de respeitar o regime individual de cada país, não podemos impor valores culturais e políticos, mas são assuntos de repercussão internacional e que merecem atenção durante a cúpula. Mas, há perfeita consciência das nossas limitações embora queiramos a paz mundial - disse.
Motta assegurou que não há pressão daqueles países que ficaram de fora do encontro.
Para rebater os comentários de que os Estados Unidos teriam pedido para participar das reuniões de cúpula, o embaixador alegou que a secretária de Estado norte-americana Condolezza Rice - que esteve em Brasília mês passado - ''parabenizou'' o Brasil pela iniciativa de realização da Cúpula.
- A própria Rice afirmou que é desejo dos EUA que países amigos ampliem suas relações com outras nações. Não houve sequer uma manifestação por parte dela, ou mesmo do presidente Bush, de que os EUA queriam estar presentes.
Motta afirmou, no entanto, que vários representantes já manifestaram interesse em encontros reservados com Lula.
- Recebemos pedidos de reuniões bilaterais tanto com países que participam do encontro como com terceiros. Mas nada está confirmado.