Título: Vinte anos não são um dia
Autor: Julio María Sanguinetti
Fonte: Jornal do Brasil, 09/05/2005, Internacional, p. A12

Há 20 anos, o que era a América Latina senão um campo armado, armado para fora e para dentro de cada país? A Argentina vinha da sua trágica guerra das Malvinas, inércia belicista que havia sido gerada para aquele confronto com o Chile, que no fim de 1978 quase leva ao conflito desses vizinhos. A América Central consumia-se em uma eterna guerra civil, que alcançava na revolução sandinista a sua expressão emblemática. As ditaduras, nascidas em sua maioria na década de 1970, projetavam a sua sombra repressiva sobre quase todo o continente. O pano de fundo era a Guerra Fria que alimentava as corridas armamentistas, enquanto no Leste se encorajavam guerrilhas marxistas e no Oeste se aceitavam os golpes de Estado para enfrentá-las. Nos gloriosos anos 1980, a democracia cresceu como uma maré no hemisfério. Os economistas cunharam, para aqueles anos, o adjetivo ¿década perdida¿, por causa da persistência dos fenômenos econômicos, da inflação e da instabilidade. Hoje, ao contrário, saudamos na perspectiva que a distância oferece, aquela década que recuperou a liberdade, consolidou as instituições democráticas e, justamente, gerou as condições para que hoje se possa deixar para trás, definitivamente, o flagelo hiperinflacionário.

Entre 1983 e 1985, a Argentina, o Brasil e o Uruguai retornaram à normalidade democrática. Os processos, do ponto de vista político, não foram iguais. Na Argentina, a guerra perdida deixou o governo militar muito frágil, e a luta cívica que o presidente Alfonsín encabeçou com coragem abriu o caminho. No Brasil, dentro de um sistema de eleições indiretas idealizado pela ditadura para eleger a sua continuidade, uma valente e criativa combinação política entre Tancredo Neves e José Sarney, produziu a abertura. No Uruguai, depois de prolongadas negociações e de um plebiscito constitucional vencido pela oposição, uma eleição popular, em novembro de 1984, promoveu o nosso reencontro com a histórica tradição cívica do país.

Nesse clima, as democracias renascidas se conjugaram para começar a tornar realidade o sonho integracionista. E, ao mesmo tempo, ajudar a democratização que veio depois no Paraguai, na Nicarágua, no Chile. Em 1989, caiu o Muro de Berlim e a partir daí o contexto internacional ficou mais favorável: exceto a abominável presença do narcotráfico, desapareciam os que podiam financiar movimentos subversivos, ou estimular golpes de Estado. Dessa forma, desembocamos em uma situação, como a atual, em que o mapa da democracia é pleno, e salvo a solitária exceção cubana, os governos são todos eleitos. Infelizmente, essas instituições renascidas não mostram a estabilidade desejada; muitos presidentes não conseguiram terminar os seus mandatos. Contudo, estamos convencidos de que esta falta de maturidade ainda remanescente, irá passando à medida que o tempo vá fazendo a sua obra de recuperação dos hábitos de convivência política e de formação do cidadão no harmônico exercício de seus direitos e deveres.

O trabalho político não está concluído, mas o maior e mais instigante desafio se abre no campo do desenvolvimento. O processo de integração no Mercosul cresceu, padecendo, contudo, de insuficiências, como a falta de coordenação macroeconômica, ou as fragilidades dos procedimentos de solução de controvérsias.

As economias estão mais abertas e são mais competitivas, porém ainda estão muito distantes dos níveis de produtividade do mundo desenvolvido. A globalização financeira introduziu aspectos de instabilidade tão corrosivos que conduziu em mais de um caso a verdadeiras catástrofes, e ainda não logramos mecanismos seguros de estabilidade. A educação ainda mostra sintomas de desigualdade social e, sobretudo, nos deixa muito distantes dos níveis do Ocidente desenvolvido e do emergente mundo asiático, cada dia mais vigoroso. É aqui, nesta dimensão da cultura, onde se travará, neste tempo já declarado de revolução científica, a batalha pelo destino de nossa civilização latino-americana.