Título: ''Mercosul é instituição consolidada''
Autor: Luciana Otoni e Luiz Orlando Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 09/05/2005, Economia & NEgócios, p. A17
O embaixador Luiz Felipe de Macedo Soares ocupa, há dois anos e quatro meses, um dos cargos mais relevantes do Itamaraty, dadas as prioridades da atual política externa do país. É o subsecretário-geral da América do Sul. Indagado sobre se o Mercosul está andando para trás, ¿ sobretudo em face das crescentes críticas das mais altas autoridades argentinas a uma suposta ¿arrogância¿ do governo brasileiro na liderança do processo de integração ¿ o embaixador admite que sua mesa está mais cheia de problemas hoje do que quando assumiu o cargo, mas pondera: ¿ Cada vez fazemos mais coisas, e uma forma de não se ter problemas é fazer pouco.
A seu ver, divergências comerciais entre os países do Mercosul têm visibilidade maior do que um bloco em adiantado processo de consolidação. Para que se supere o sentimento de ¿alguns países sul-americanos¿ sobre uma posição hegemônica do Brasil, Macedo Soares defende maiores investimentos brasileiros na Argentina e a adoção de políticas industriais complementares. Ele não acredita que tais críticas repitam-se nesta semana, durante a da Cúpula da América do Sul e dos Países Árabes, em Brasília. O embaixador classifica ainda a Venezuela como ¿nossa Argentina do Norte¿ e reitera que não cabe ao Brasil interferir na política externa do presidente Hugo Chávez.
O Mercosul passou a andar para trás, como caranguejo?
O Mercosul às vezes tem essa aparência, que salta à vista, em função de problemas comerciais, mas o bloco é uma instituição consolidada porque abrange todos os setores.
Mas na cúpula, observando-se as últimas declarações do presidente argentino, Néstor Kirchner, parece não haver harmonia...
O Mercosul é organizado, abrangente, ativo e influente. Contudo, o que transparece mais são questões especificamente comerciais. Mesmo sem se chegar lá no topo, nas divergências aparentemente existentes entre os presidentes Kirchner e Lula, há divergências comerciais provocadas pela indústria argentina, que deseja interpor barreiras à entrada de determinados produtos brasileiros. Mas temos de ver que, igualmente, há produtores de vinho brasileiro querendo taxas para vinhos argentinos, e há demandas dos arrozeiros brasileiros, que até bloquearam estrada na fronteira com o Uruguai.
Por que isso acontece?
São as vicissitudes do processo de integração, porque as acomodações são sempre difíceis. Em termos globais, para a maioria dos produtores e para as populações, não há dúvida que o Mercosul é benéfico. No entanto, pode criar dificuldades para setores específicos, e as soluções são diversas. Em alguns casos, pode-se criar exceções, e há quem ache isso um indício de fracasso. Tudo que disse já aconteceu ou ainda acontece na União Européia.
As divergências da semana passada vão respingar na Cúpula da América do Sul e dos Países Árabes, esta semana?
De certa forma, sim. Mas não se deve esquecer que a Argentina é o parceiro mais importante do Brasil. Devo dizer ainda que, embora a idéia da Cúpula tenha sido do presidente Lula, desde o primeiro momento procuramos associar a Argentina à organização.
Mas o incidente recente entre o Brasil e a Argentina não provoca incômodos diplomáticos, tendo em vista que da reunião participam os países árabes?
Não sei se os países árabes acompanham essa questão de perto. Algum país ou outro, sim. A importância da cúpula de Brasília é seu ineditismo entre essas duas regiões em geral tão alheias entre si. Tenho certeza de que o que foi dito na semana passada não será dito nesta semana.
Esse mau humor argentino e também do Uruguai tem a ver com a candidatura do Brasil à diretoria-geral da Organização Mundial do Comércio?
A dificuldade brasileira com a candidatura uruguaia foi claramente explicada. Não tínhamos a ambição de mais um posto internacional e especialmente esse. Tanto que não tínhamos apresentado um candidato. A candidatura brasileira veio depois das demais. Inclusive, algum tempo foi perdido na procura de um candidato de outro país do G-20 com chance de vitória.
Mas o que aconteceu?
Ficamos em uma sinuca como, aliás, continuamos a estar, de certa forma, porque há, de um lado, o candidato da Europa com interesses opostos aos nossos e, de outro, o candidato uruguaio que havia se posicionado, em outra oportunidade, contra interesses do Brasil e dos demais países do G-20. E na época, o governo do Uruguai, que não era o atual, também não quis que o país aderisse ao G-20, embora objetivamente o Uruguai possua interesses iguais aos nossos.
Essa decisão do Brasil colocou lenha na fogueira das divergências do Mercosul?
Com a Argentina, não. É sabido também que está em discussão, há dez anos ou mais, a questão da reforma das Nações Unidas, em particular do Conselho de Segurança, e especificamente, entre outras coisas, o aumento do número de membros permanentes. E o Brasil foi considerado e se considerou um país viável para ocupar um desses lugares.
Quer dizer, o país tem peso específico no cenário internacional e sabe que tem esse peso, o que teria causado a inveja argentina. Como resolver isso?
Isso tem que ser superado. Não há dúvida de que nossa cooperação com a Argentina é grande e tem crescido. Mas é preciso fazer mais, porque não podemos esquecer de que o que ocorreu com a Argentina. A economia foi tremendamente abalada. Não podemos vê-la como um competidor que está aí para ser usado. Precisamos pensar em parcerias.
O que significa o Brasil fazer mais pela Argentina?
Ao se comprar empresas argentinas há transferência de dinheiro, mas os argentinos esperam que as companhias brasileiras invistam, que essas companhias se modernizem, aumentem a produção... Então, é necessário que os brasileiros invistam na Argentina para criar empresas novas.
Mas isso não tem acontecido?
Sim, porém em escala menor do que deveria. É preciso que o Finame seja utilizado na Argentina para financiar máquinas e equipamentos. Esse é um desejo que tem esbarrado em dificuldades legais do regulamento do BNDES.
O governo vai conversar com empresários e pedir ao BNDES mais iniciativas?
Trabalha-se muito na relação bilateral. Contudo, às vezes, a burocracia torna as coisas lentas. Há outra questão importante: é preciso que os dois países se acertem em termos de política industrial.
Desde que o senhor assumiu a sub-secretaria das Américas, sua mesa ficou mais cheia de problemas?
A mesa está mais cheia de problemas porque cada vez fazemos mais coisas. Uma forma de não se ter problemas é fazer pouco. A Argentina sempre foi importante, mas nunca vi intensidade tão grande de iniciativas e desejo de levar adiante a integração.
A relação entre o presidente Hugo Chávez e Fidel Castro distancia cada vez mais a Venezuela dos EUA. Cabe ao Brasil algum papel nessas relações?
O Brasil não pode interferir na política externa da Venezuela. A Venezuela é nossa Argentina do Norte, com potencial maior que os demais países da área. É um país que, por conta da dependência do petróleo, sempre esteve voltado para seu principal cliente, os Estados Unidos. Mas no começo dos anos 90, o país girou a política externa para o Sul, em direção ao Brasil, e essa aproximação mútua deu frutos.