Título: Prós e contras
Autor: Jarbas Passarinho
Fonte: Jornal do Brasil, 10/05/2005, Outras Opiniões, p. A17

Por muito tempo, na minha vida política e partidária, fui governo ou o defendi. Ensinou-me o trato com a imprensa que governo, em geral, não tem a preferência da mídia. Ao contrário - disse-me um jornalista meu amigo - a oposição é que é notícia. Em pleno regime autoritário, com AI-5, o noticiário mais generoso era com a oposição, com os discursos primorosos de Paulo Brossard e de Marcos Freire, e os de Teotônio Vilela que, oriundo da Arena, rompera conosco. A censura, considerada necessária num país em guerra civil não declarada, não tinha a eficiência radical dos soviéticos, que por setenta e dois anos seguiram uma cartilha, observada implacavelmente por censores treinados. Uma da suas vítimas foi o físico nuclear Andrei Sakharov, o ''ídolo soviético'' que chegara à mais terrível de todas as armas termonucleares, a bomba H. A partir, porém, de 1965, dera-se conta de que a ameaça do conflito nuclear ''deveria ser evitado a todo custo, para impedir a extinção da humanidade. O Leste e o Ocidente conviverão pacificamente ou ambos perecerão'', dizia ele, advertindo os donos do poder mundial. Bastou isso para Krushev transformá-lo de herói em pacifista incômodo. Submeteu-o ao que o Vaticano chama de ''silêncio obsequioso'' e depois ao ostracismo sob a vigilância permanente da polícia secreta, a KGB. Mas ele conseguiu fazer chegar, clandestinamente, um manuscrito ao Ocidente, publicado no New York Times, em 1968. Nele enfatizava a importância da liberdade intelectual, ''essencial para obter e divulgar a informação, o debate livre da pressão oficial e garantia única contra a infecção do povo pelo mito que, na mão de demagogos, pode transformar-se em ditadura sanguinolenta''.

Depois do malogrado projeto do Conselho Federal dos Jornalistas que amordaçaria a imprensa, iniciativa dos líderes sindicais dos jornalistas, o Secretário de Direitos Humanos inventa a estranha cartilha do que deveria ser o Politicamente Correto, erro crasso intolerável num regime democrático. Usando o espaço que a imprensa escrita me concede, tenho procurado ser equilibrado nas críticas do governo Lula, que não aprecio. Mas também não me poupo de fazer justiça a ele, a quem nem todos os oposicionistas fazem. Mais forte que a reação do Presidente ao Conselho, a cartilha dele mereceu a condenação veemente e imediata: ''Acho um absurdo, uma perda de tempo e um gasto desnecessário de dinheiro''. Evidência de que um ministro, neste governo, pode dar-se à liberdade de teorizar sobre assunto que implica diretriz governamental, o que causou indignados protestos, inclusive de quem lhe era simpático e de que fora eleitor, como o escritor João Ubaldo Ribeiro: ''Estamos ingressando numa era totalitária? É uma indigência bolchevista''. Um primarismo digno de mente anacrônica, essa cartilha. Há palavras que desde logo entrariam para o index de observância obrigatória, não só da redação oficial, mas em geral, modelando e norteando a expressão do pensamento, lembrando o nihil obstat da Igreja ou a censura intelectual dos comunistas, que deles afastou, cedo, Rachel de Queiroz e a que não se submeteu Graciliano Ramos, ao escrever Memórias do Cárcere e A Viagem de retorno da URSS.

De todas as palavras postas no index, e amplamente divulgadas como pejorativas, a que mais me chamou a atenção foi o vocábulo comunista, assim entendido como ofensa excluir de qualquer texto jornalístico ou literário. Como explicar isso? Ao que li, a explicação seria impedir que comunista, dito com o objetivo de insultar, fosse associada aos genocídios nazistas. Ato falho, sem dúvida, porque em matéria de genocídio o praticado por Stalin contra os kulaks, os lavradores que se negaram a obedecer a coletivação compulsória da propriedade rural, que Soljenitsin estima em 14 milhões de vítimas, em nada fica a dever à crueldade de Hitler com os judeus. Ademais, como o PC do B aceitaria essa interpretação esdrúxula? Seus adeptos sentir-se-ão ofendidos ao serem chamados de comunistas? Não faz muito, o ministro Aldo Rebelo, em entrevista que honra a sua coerência, reclamou para si a condição de comunista, o mesmo que faz o nonagenário Oscar Niemeyer.

Louvo a pronta reação do presidente Lula, como louvo o ministro Palocci, que reconheceu tranqüilamente haver errado ao seguir a orientação da bancada do PT na Câmara, ao votar contra o projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal, quando deputado federal. Já o senador Mercadante, líder do PT no Senado, preferiu usar o velho recurso de defender atacando. Mesmo apontando os erros do governo tucano, o arroubo oratório de ataque resulta paradoxalmente em ressaltar o erro que o ministro teve a humildade de confessar, mesmo porque o senador esqueceu que dois erros não fazem um acerto.

Obedecendo, agora, à lei, de que foi contrário no passado, o ministro Palocci cumpriu o dever de revelar que a senhora Marta Suplicy a descumpriu quando prefeita da cidade de São Paulo. Mas o presidente salvou-a editando uma medida provisória tipicamente casuística. O governo erra. Vai usar a tribuna para atacar FHC?