Título: Democracia ficou apenas no discurso de Lula
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 12/05/2005, País, p. A2
Presidente prega a liberdade no encerramento, mas documento não faz menção a isso
AFP Lula agradeceu a disposição dos árabes de vir ao Brasil para participar da cúpula com os países da América do Sul e disse que valeu a pena
Num discurso de improviso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reassumiu a dianteira diplomática, contornou as falhas do Itamaraty do primeiro dia da Cúpula Países Árabes-América do Sul e fez uma vigorosa defesa da democracia. Em tom cadenciado, encarando a platéia de representantes árabes e sul-americanos, apoiou a autonomia do Estado palestino e condenou a invasão comandada por Estado Unidos e Reino Unido no Iraque. Ao falar sobre democracia ¿ termo praticamente inexistente no documento final da cúpula ¿, Lula não perdeu a chance de acrescentar mais uma metáfora a seu repertório:
¿ Essa cúpula tem o sabor da construção de um alicerce que dará sustentação a uma casa sólida, a um monumento de relações internacionais ¿ afirmou A maioria dos países árabes estão longe do modelo democrático, enquanto na América do Sul há um esforço na consolidação das instituições democráticas.
O presidente da Argélia e da Liga Árabe, Abdelaziz Bouteflika, agradeceu o apoio da América do Sul:
¿ Estamos muito satisfeitos com a posição tão clara de apoio ao presidente da Autoridade Palestina [Mahmoud Abbas] e a seus direitos inalienáveis - disse. Segundo Bouteflika, ¿todos sabem que o objetivo é acabar com as políticas de defesa desmedidas nas quais Israel sempre se beneficiou em detrimento dos países árabes¿.
Lula elogiou particularmente o presidente palestino:
¿ Fiquei impressionado com a conversa que tive com ele, pela sua sabedoria e pela sua tranqüilidade em saber que a paz será, sobretudo, um jogo de paciência, como um jogo de xadrez. Ao mesmo tempo que temos pressa de conquistá-la, temos que ter paciência para construir as oportunidades ¿ afirmou.
Mas, tentando evitar polêmica com os Israel, para onde vai o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, no fim do mês, Lula disse ¿que nunca negou a necessidade do Estado de Israel¿. Quanto ao Iraque, o presidente disse que o Brasil foi daqueles países que contestaram a ocupação porque entendia que era preciso negociar. ¿Agora, o povo iraquiano, como outros povos, tem o direito de construir seu próprio país¿. O Iraque continua ocupado pelos EUA.
O discurso de Lula, logo depois da aprovação simbólica da "Declaração de Brasília", encerrou dois dias de reuniões de chefes de Estado, chanceleres e importantes representantes de 34 países - 22 árabes e 12 sul-americanos. Foi uma reunião sobretudo política.