Título: Pyongyang volta a desafiar
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/05/2005, Internacional, p. A10
Em nota oficial, governo afirma que já pode processar plutônio para bombas atômicas
PYONGYANG - A Coréia do Norte anunciou ontem ter completado o processo de extração de combustível nuclear que permite a fabricação de plutônio para bombas atômicas. Foi a primeira vez que o governo confirmou as suspeitas da comunidade internacional sobre a continuidade dos trabalhos do reator no complexo nuclear de Yongbyon.
De acordo com o comunicado do Ministério das Relações Exteriores divulgado ontem, o país já trabalha na expansão de seu arsenal atômico. A nota, que não cita a data da ação, informa que ''foram retiradas 8 mil barras de combustível da usina nuclear de Yongbyon'', localizada 90 km ao Norte da capital, Pyongyang.
Segundo jornais sul-coreanos, a quantidade de combustível declarada pela Coréia do Norte permite a fabricação de duas bombas, mas o reprocessamento do material leva meses.
Face à notícia, autoridades sul-coreanas pediram ao país vizinho que volte à mesa de negociações, que envolve também China, Estados Unidos, Japão e Rússia. O anúncio foi feito um dia depois que o governo de Pequim rejeitou usar qualquer tipo de sanção para forçar Pyongyang a voltar a negociar.
Recentemente, multiplicaram as informações na imprensa, principalmente nos Estados Unidos, sobre o iminente anúncio de um teste nuclear subterrâneo pelo país. Ontem, o embaixador dos Estados Unidos no Japão, Thomas Schieffer, declarou que a Coréia do Norte adotou medidas preparatórias para realizar tal teste.
- Isto seria um sério golpe ao processo de negociação - avaliou Schieffer.
O Japão, por sua localização, poderia ser afetado por um teste realizado a céu aberto. De fato, acredita-se que o arsenal de mísseis norte-coreanos de médio porte é mantido para o caso de um ataque a cidades japonesas ou a bases americanas no Japão.
No entanto, o premier Junichiro Koizumi subestimou, ontem à noite, a declaração de Pyongyang:
- Eles têm feito este tipo de advertência como parte do jogo - afirmou.
Com base em imagens de satélite, especialistas americanos, citados sexta-feira pelo jornal The New York Times, afirmaram que o país asiático começou a construir um posto de observação e a preencher um túnel que havia cavado previamente, dois sinais que provariam a preparação do teste nuclear subterrâneo.
Em 1994, em virtude de um tratado bilateral entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos, o complexo de Yongobyon havia sido fechado, mas em outubro de 2002 os americanos revelaram que o país tinha iniciado um programa de enriquecimento de urânio, em violação ao acordo.
''A Coréia do Norte já declarou, em dezembro de 2002, que iria reiniciar a operação em Yongbyon, e retomar a construção de outras duas usinas'', afirma o texto do comunicado.
Em fevereiro, o governo de Pyongyang anunciou formalmente que não mais faria parte da mesa de negociações, e disse que já possuía armas nucleares, confirmando pela primeira vez os rumores sobre essas atividades no país.
Mesmo com a declaração norte-coreana, a questão permanece controversa. Funcionários do governo sul-coreano chegaram a afirmar, em abril, que o Norte tinha suspendido as operações em Yongbyon.
Segundo especialistas internacionais, mais de oito bombas nucleares já foram fabricadas no país.