Título: Uma ponte longe demais
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/05/2005, Opinião, p. A12
O momento para a realização da cúpula de Brasília, pelo menos em tese, até era adequado. Por trás do pretexto de se estabelecer um novo eixo econômico global, sabia-se que mundo árabe é um caldeirão forjado em ouro mas em permanente ebulição há 2 mil anos. Um cadinho onde se confrontam a ditadura e a democracia, onde teocracias tentam reescrever o sentido da civilização e a guerra dissolve conceitos de Humanidade. Apostou-se, com certa ingenuidade, que o ineditismo da iniciativa poderia ser o suficiente para a criação de novo paradigma histórico, capaz de atrair os olhares do mundo para a diplomacia nacional como se a janela pudesse, de uma hora para outra, modificar a paisagem. A associação da multifacetada e aberta sociedade brasileira a um exemplo de modelo viável para o futuro completava um quadro idealista.
O problema é que o Itamaraty esqueceu que o adversário também joga, e há muito mais tempo. Não se percebeu que a cúpula, em vez de economia, funcionaria como um palco novo para as velhas aspirações da Liga Árabe, cujas reuniões causam cada vez menos impacto em função do esvaziamento provocado por agendas independentes de seus integrantes. Num espectro diplomático no Oriente Médio dominado por poucos atores, a cúpula de Brasília deu voz e palco a quem havia praticamente perdido os dois.
O governo nunca escondeu que queria inserir a carta resultante do encontro no rol dos grandes documentos internacionais. Agora deve uma explicação melhor do que o jargão político vago para demonstrar o que o Brasil ganhou com esse encontro. Os resultados positivos, se existem, não estão visíveis a olho nu. Quanto aos negativos, parecem transbordar.
A intempestiva saída do presidente argentino é um deles. O temperamento mercurial de Néstor Kirchner se aproveitou da brecha deixada por uma agenda dentro de outra para se impor. Justificou-se dizendo que ia embora por ter resolvido o que lhe interessava. Fez o Brasil cerrar fileiras no debate da soberania das ilhas Falklands/Malvinas, arriscando um atrito com um parceiro antigo como a Grã-Bretanha.
Não demonstrou, contudo, atitude recíproca quando o assunto se encaminhava para as plataformas árabes. Brasília precisava impressionar os interlocutores como aglutinadora de um continente politicamente coeso. Ficou a ver navios e ainda viu o canal com os Estados Unidos ser arranhado - algo que Kirchner, por tradição histórica, aproveitará rapidamente.
A própria declaração final, fruto de intensas negociações, soou dúbia, haja visto manifestações captadas no exterior. Enquanto princípios de democracia, de direitos humanos, de compromisso com o combate à opressão e de respeito às leis internacionais mereceram tratamento respeitosamente genérico - ou dúbio, como no endosso à ''resistência à ocupação'' que iguala líderes palestinos como Mahmoud Abbas aos terroristas do Iraque -, questões específicas ganharam estranho destaque em um texto dedicado a pavimentar a ponte entre os dois mundos. Uma foi o inequívoco apoio à ''soberania'' do governo do Sudão, ameaçado de intervenção militar pelas Nações Unidas em função do patrocínio ao genocídio de 180 mil pessoas na província de Darfur. Outra foi a menção ao conflito entre Israel e os palestinos, no qual se incluíram aspectos considerados ultrapassados, que ajudavam a manter atado o nó do sangrento impasse na região.
Anfitrião da Cúpula América do Sul-Países Árabes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de tudo, foi o responsável pelo melhor momento do encontro. Falando de improviso diante de interlocutores que tratam a desigualdade social como uma ficção ocidental, credenciou-se pela história pessoal de superação a cobrar-lhes maior compromisso na luta contra a fome e a pobreza. Deixou claro que não se esconderam os problemas à passagem das comitivas. Pediu iniciativas em nome de um país onde ''só há menos negros que na Nigéria'' e no qual há muito mais árabes que em várias nações ali presentes. Falou de democracia diante de rostos impassíveis com a autoridade de quem viveu sob o jugo da opressão e pode exercer, como árabes e judeus o fazem livremente nas cidades brasileiras, a fé que quiser.