Título: Um luminoso começo
Autor: Dom Eugenio Sales
Fonte: Jornal do Brasil, 14/05/2005, Outras Opiniões, p. A11
Os recentes acontecimentos vinculados à Igreja católica são de tal riqueza espiritual que merecem várias e múltiplas reflexões. Elas nos conduzem a uma tomada de atitude, não só em favor da mesma Igreja, como também de diversas outras denominações cristãs, de credos diferentes, de pessoas que apesar de não professarem uma fé religiosa, foram atingidas pela dimensão transcendental dessas ocorrências.
A morte de João Paulo II, após longa e dolorosa enfermidade, santamente suportada, o seu extraordinário trabalho como Sucessor do Apóstolo Pedro durante mais de 26 anos e o êxito de suas atividades pastorais provocaram, em todo o mundo, uma comoção tão generalizada, que causou imensa admiração.
Católicos e não-católicos, governantes e o povo em geral, em todos os países manifestaram a mais sincera gratidão pelo Papa que consagrou a vida em favor da autenticidade dos ensinamentos de Cristo em benefício de toda humanidade.
Estabeleceu-se um clima de unidade em toda a terra em torno de João Paulo II. Não consta na história fato semelhante. Estavam presentes 176 reis, rainhas, presidentes de República e chefes de governo. Para confirmar esse fantástico momento, aqui e ali, surgiram vozes discordantes tentando empanar a grandeza do mesmo, fazendo de si próprio critério único da Verdade Suprema. A Humanidade, com estas manifestações de católicos e não-católicos, revelou a esses descrentes que a Verdade não estava com eles quando atacavam o Sucessor de Pedro e sua Igreja.
Um pequeno grupo mostrava sua insatisfação pelo imenso trabalho teológico na defesa do autêntico ensinamento da Fé e da Moral. No entanto, eis que surge de toda parte, diante dos sofrimentos de João Paulo II, a esperança de um Sucessor conforme as necessidades autênticas da Igreja, para enfrentar o mundo hodierno, adverso aos ensinamentos de Jesus Cristo.
Em poucas semanas o ecoar das trombetas de Gedeão fez desmoronar o que era apresentado como o verdadeiro Magistério. Hábil campanha proclamava, como aspirações da comunidade eclesial, diversas doutrinas, estimuladas por vários grupos e propugnadas como sendo suposto ensino da Igreja. Escolhiam nomes para um futuro Sucessor de Pedro e alterações a serem introduzidas na Igreja.
Insistiam em falsamente descobrir erros doutrinários todas as vezes em que a verdade de Jesus Cristo não estava de acordo com as correntes do pensamento, os interesses desses grupos ideológicos. Algo assim como optar por um ensino que facilitasse as paixões ou contrariasse as exigências do Evangelho. Optavam pelos interesses imediatistas do homem e não pelos direitos de Deus. A propaganda era feita como se a Igreja fosse um partido político.
Na segunda-feira, 25 de abril, o Papa Bento XVI visitou a Basílica romana de São Paulo ''fora dos muros''. Nessa primeira manifestação pública o novo Pontífice recordou: ''Ao início do 3º Milênio sinto, com renovada força, que o mandato de Cristo é mais atual que nunca''.
No mesmo dia, o Papa recebeu, na Sala Clementina, os representantes de confissões cristãs não-católicas e outras religiões vindos a Roma para assistir ao início do seu Pontificado. Nesta oportunidade, disse: ''Sinto a necessidade de afirmar novamente o compromisso irreversível, assumido pelo Concílio Vaticano II, de percorrer o caminho para a plena comunhão, querido por Jesus, para seus discípulos''.
Esse luminoso começo de sua missão de Sucessor de Pedro, é uma resposta à posição de alguns irmãos nossos, equivocados. É dever de quem governa legitimamente a Igreja de Jesus servir à Verdade divinamente ensinada; em outras palavras, servir a Deus e não apenas agradar aos homens. Recordemos o que era proclamado por alguns - reduzida minoria - sobre o valor moral e pastoral do Cardeal Joseph Ratzinger. Alardeavam uma divisão entre os votantes no Conclave, à moda das eleições na sociedade humana.
E eis que Joseph Ratzinger é eleito Bento XVI, escolhido em apenas quatro escrutínios, revelando a unidade, quando se trata de servir à Igreja. Entretanto a alegria voltou a tomar posse da mesma Igreja, quando um homem, tão santo e humilde, assume o governo da Igreja, escolhido pelo Espírito Santo para dirigir a Obra de Jesus.
Uma outra conclusão se impõe: é o discernimento que deve ser feito diante de pronunciamentos sobre a própria natureza dos ensinamentos de Cristo. A estrutura que Jesus deu à sua Igreja não pode estar à mercê de afirmações e desejos. A Verdade não é fruto do número de aderentes.
Não se pode moldar a Instituição conforme o desejo e as opiniões dos homens. Trata-se de uma obra divina, aberta a receber a criatura, que aceita os elementos autênticos de seu código de verdades e de comportamento, mas que não é fruto do parecer dos homens e sim dos ensinamentos de Cristo, expostos pelos que a assumem e dirigem em nome de Deus.
De modo particular, esse discernimento se impõe quando quem o pronuncia tem um passado que inclui divergências ou atritos com a Instituição. Merece também maior atenção quando essas manifestações são proclamadas por quem se declara católico.
Muitas vezes, isso é apenas o início de um ataque à Igreja; procurando afirmar ser-lhe fiel, quando, na realidade, a atraiçoa. O espetáculo de fé o qual nos foi dado assistir, em manifestações uníssonas e por toda a Terra, em favor das diretrizes do Pontificado de João Paulo II e da escolha de Bento XVI, vindos esses aplausos calorosos tanto de autoridades civis e religiosas como do povo de toda as regiões do mundo. Unidos estavam, em torno de um homem que lutou pela paz e à serviço de Cristo Jesus.
Estas considerações, importantes já no tempo de São Paulo, mostram-se plenamente atuais em nossos dias, para se discernir a verdade em meio aos erros vigentes: ''... para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia, enganam fraudulosamente'' (Ef 4,14).