Título: Dantas comandou espionagem
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 15/05/2005, País, p. A7
Inquérito da Polícia Federal conclui que banqueiro orientou, incentivou e deu suporte financeiro ao esquema ilegal de investigação
Um dos mais poderosos banqueiros do Brasil, Daniel Dantas - dono do grupo Opportunity - acabou deixando suas digitais em um esquema de espionagem jamais visto no país. Ao recorrer à empresa Kroll Associates na Inglaterra para manter o controle acionário da Brasil Telecom, em uma disputa comercial com a Telecom Itália, Dantas patrocinou uma operação ilegal que quebrou sigilos, fez escuta telefônica sem autorização da Justiça e constrangeu vários desafetos seus. Este poderoso esquema de espionagem foi descoberto pela Polícia Federal ano passado em escutas telefônicas das investigações do Caso Parmalat e acabou resultando na abertura de nova investigação - o chamado Caso Kroll.
As investigações da Divisão de Inteligência da Polícia Federal (DIP) concluíram que a agressividade de Dantas acabou criando uma ''organização criminosa transnacional'', já que a Kroll da Inglaterra se associou à Kroll Associates no Brasil para quebrar sigilos. Segundo a PF, Dantas tem ''posição superior'' na estrutura da organização criminosa.
Ao longo de mais de seis meses, a DIP ouviu 32 pessoas, realizou 20 operações de busca e apreensão - inclusive no escritório e no apartamento de Dantas- e reuniu documentos para confirmar o envolvimento do banqueiro com a quadrilha. O segundo relatório de inteligência da Operação Chacal - que um jurista teve acesso - traz os passos de Dantas para espionar os ''inimigos do Opportunity'', contratando primeiramente a Kroll e depois o capitão do Exército israelense Avner Shemesh. Para a PF, ficou caracterizado que a quadrilha tinha um esquema permanente, profissional e consciente'' para ''constranger desafetos''.
Dantas é sabedor dos métodos da atuação da Kroll desde 2000, diz a PF. Mesmo assim, orientou, incentivou e deu suporte financeiro à espionagem ilegal. A Kroll corrompeu servidores públicos para conseguir dados junto à Receita Federal, Banco Central, Caixa Econômica Federal e bancos privados.
As investigações mais ''agressivas'' - que envolviam quebra de sigilo bancário, telefônico, fiscal, judicial e telemático - foram executados pelo espião português Tiago Verdial, Júlia Marinho Leitão da Cunha e o inglês William Peter Goodall, o Bill. Os ''alvos'' da espionagem eram escolhidos por Dantas e Carla Cico, presidente da Brasil Telecom.
Há registros do relacionamento direto de Dantas com os espiões. Em um e-mail de abril do ano passado, encontrado na sede da Kroll, a espiã Júlia Cunha reclama que o espião Thiago Verdial comunicou de forma irônica que ela não iria na reunião com Dantas ''na segunda''. Em depoimento, Dantas afirmou que Carla ''comentava apenas esporadicamente'' os dados que eram repassados pela Kroll, em ''conversas informais''. Afirmou que recebeu um relatório da Kroll, ''possivelmente em 2000'', que poderia servir de elemento para uma ação da Brasil Telecom e do Opportunity na Itália. Em busca realizada pela PF no apartamento de Dantas, no Rio, entretanto, foi encontrado um relatório da Kroll, classificado como ''confidencial''. Redigido em inglês, em outubro de 2001, tem como destaque Andrea Calabi.
Na busca feita na sede da Kroll em São Paulo, a PF encontrou uma pasta de investigação de interesse do Opportunity. Mostra que, além de Calabi, foram investigados o ex-ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, e o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Consta na pasta de documentos - utilizados para a confecção dos relatórios - consulta ao banco de dados PIS/PASEP com o saldo bancário em nome de Andrea Calabi. Segundo a Caixa Econômica Federal, este tipo de dado é sigiloso, acessado apenas pelo contribuinte.
Auxiliar de direção da Kroll no Brasil quando a empresa municiava o banqueiro com relatórios, Márcia Cristina Ruiz joga por água abaixo a versão de Dantas. Contou à PF detalhes do relacionamento dele com os diretores da Kroll Eduardo Sampaio, Vander Giordano e Eduardo Gomide. Segundo ela, havia um questionamento entre os funcionários sobre o porquê de a Kroll nunca dizer ''não'' ao banqueiro.
- Os contratos com Dantas eram sempre acima de R$ 100 mil - revelou Márcia Cristina.
Márcia ajudou a montar ''gráficos'', nos quais constavam os nomes de Calabi e do ex-presidente do Banco do Brasil, Cassio Casseb, também investigado pela Kroll. Este serviço, disse Márcia, foi enviado ao Rio, onde fica a sede do Opportunity. Durante o período em que ela trabalhou na Kroll, entre 1999 e 2002, o Opportunity ''sempre foi cliente''. Em 2002, a executiva presenciou os diretores Sampaio, Gomide e Giordano ''felizes'' com o valor de um dos recentes contratos fechados com a Brasil Telecom.
A espiã Júlia Cunha, ao ser presa ano passado, revelou que Omer Erginsoy e William Goodall participaram de reuniões com Dantas e Carla. Vander Giordano revelou que a Kroll Brasil foi contratada pelo Opportunity para investigar Luiz Roberto Demarco, ex-sócio do banqueiro. Eduardo Gomide confirmou que a empresa foi contratada pelo Opportunity e chegou a participar de reunião na Brasil Telecom com Omer Erginsoy, Carla, ''e mais uma pessoa''.
Dantas teve acesso a dados ''sensíveis'' sobre vários oponentes. Cientes desse modo da atuação da Kroll, diz o relatório, ele e Carla se uniram à quadrilha. ''Dantas tem um histórico de violação à legislação criminal, especialmente no que diz respeito a seu interesse sobre a vida dos desafetos'', explica a PF no relatório, ressaltando que a organização criminosa, mesmo identificada, continua em plena atividade.
- Há quase uma fixação de Dantas em monitorar os contatos de Demarco com integrantes dos meios de comunicação - conclui a PF.