Título: Mortos no Uzbequistão podem passar de 500
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Fonte: Jornal do Brasil, 15/05/2005, Internacional, p. A11

Centenas de corpos, inclusive de civis, foram vistos nas ruas, após confronto entre Exército, manifestantes e rebeldes

ANDIJAN - Pode passar de 500 o número de mortos após a violenta repressão do Exército à insurreição popular no Uzbequistão, na sexta-feira. Apesar de o presidente Islam Karimov - contra o qual os manifestantes protestam - ter anunciado a morte de 30 pessoas, ONGs humanitárias afirmam que o número é muito maior.

De acordo com Karimov, entre os mortos estão nove soldados e 10 ''rebeldes'' ligados ao Hizb ut-Tahrir - organização que busca criar um estado islâmico reunindo ex-repúblicas soviéticas na Ásia Central. Mas apenas na tarde de ontem foi possível para repórteres contarem pelo menos 50 corpos nas ruas de Andijan: 20 na praça da administração regional, e a 1 km de lá, perto do cinema Tchoulkon, estavam de 20 a 30 corpos de civis, com marcas de balas. A maioria das vítimas era de homens e adolescentes.

O diretor da Appelatsia, organização uzbeque de defesa dos direitos Humanos, Lutfula Shamsutdinov, denunciou ainda que 300 corpos foram retirados de Andijan por três caminhões e um ônibus.

- Pelo menos um terço era de mulheres - acrescentou.

- O número total de mortes poderá chegar a 500 pessoas, de ambos os lados - afirmou outro diretor da ONG, Saidzhakhon Zainatbitdinov.

Testemunhas confirmam ainda que muitos dos corpos foram levados para fora da cidade durante a madrugada, pelas forças de ordem. Várias pessoas teriam sido executadas quando voltavam para casa, após participar da manifestação em apoio aos rebeldes, que haviam tomado prédios públicos, na quinta-feira.

- É uma verdadeira guerra. Vi mais de 200 corpos - contou o civil Abdul Gassurov.

Em vários pontos de Andijan, a revolta contra o governo era ainda maior do que antes da manifestação de sexta.

''Abaixo Karimov, que mandou atirar contra seu próprio povo'' gritava a multidão.

Os manifestantes exigem a renúncia de todos os membros do governo, mais democracia, reformas econômicas e a libertação de 23 pessoas acusadas de propagar idéias islamitas. Esta é uma das mais mais graves já enfrentadas pela administração de Karimov, que desde 1991 dirige com mão-de-ferro o Uzbequistão, rico em gás e onde existe uma base militar americana.

Os rebeldes pediram a mediação da Rússia, mas Moscou declarou apoio a Karimov e disse condenar os extremistas. Ontem, o presidente russo, Vladimir Putin, conversou com o dirigente uzbeque pelo telefone, expressando sua preocupação com o que considera ''tentativas de desestabilização dos países da Ásia Central''.