Título: Espionagem custava R$ 600 mil por ano
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/05/2005, País, p. A4
O banqueiro Daniel Dantas - dono do Grupo Opportunity - chegou a gastar mais de R$ 600 mil por ano para sustentar o esquema de espionagem ilegal no Brasil, que quebrou sigilo de políticos, empresários e autoridades públicas. A documentação recolhida pela Polícia Federal na sede da Kroll Associates, em São Paulo, inclui as notas fiscais com pagamentos feitos pela Brasil Telecom e a Telemig Celular, controladas pelo Opportunity. Uma das pastas apreendidas traz a relação de todas as notas fiscais de serviços prestados pela Kroll a empresas brasileiras em 2003. Juntas, as empresas Brasil Telecom e Telemig Celular fizeram 13 pagamentos à Kroll, no valor R$ 607 mil. Os pagamentos de Dantas à Kroll eram constantes, em parcelas que variavam de R$ 15,5 mil a R$ 73,8 mil, e mostram que o banqueiro era um dos principais financiadores do esquema, ao lado de outras empresas.
A dimensão dos pagamentos da Brasil Telecom e da Telemig Celular para a Kroll pode ser medida pelo faturamento da empresa de espionagem. O balanço societário da Kroll em 2003 mostrava um ativo/passivo de R$ 4,2 milhões. No ano anterior, a Kroll apresentou lucro líquido de R$ 437 mil.
Daniel Dantas utilizou dinheiro arrecadado da Brasil Telecom e Telemig Celular para investigar os próprios sócios, entre eles a Telecom Itália e o Fundo de Previdência do Banco do Brasil (Previ). O esquema financiado com dinheiro de concessões públicas investigou autoridades do governo federal.
Na papelada encontrada na Kroll, há instruções para ordem de pagamentos em moeda estrangeira. Uma das planilhas - sobre operações de câmbio envolvendo a empresa Gelirey Corporation - inclui um e-mail cujo assunto é ''Bônus Uruguai''. O e-mail diz: ''Léo, veja o bônus pago pelo Uruguai FH 16K, DD 7K, AA 3K, totais 26 USD. Favor não colocar nomes no lançamento do México''. A sigla ''DD'' é como os espiões da Kroll chamam Daniel Dantas. ''K'' é a abreviação de milhões entre alguns lobistas.
Além do dólar, há referências a operações em libra esterlina e euro. Em um dos documentos, constam referências à conta bancária da empresa, com manuscritos sobre diversos clientes, entre eles a Brasil Telecom. O esquema de espionagem da Kroll tinha vários braços internacionais. Na documentação apreendida em São Paulo há documento enviado pelo United States Secret Service (Serviço Secreto dos Estados Unidos), fazendo referência a mensagens eletrônicas sobre obtenção de informações.
A Kroll abordou várias autoridades do governo federal para conseguir informações. Entre os cartões de apresentação apreendidos na sede da empresa estão o da ex-diretora da Agência Brasileira de Informações (Abin), Marisa Almeida Del Isola e Diniz, do coordenador de Gestão da Informação do Ministério da Justiça, Renato Sérgio de Lima, e do ministro do Esporte, Agnelo Queiroz.
Também foi encontrado na sede da Kroll o cartão de apresentação de uma analista da Abin, Astrid Cruz Oliveira. Além do cartão, foi recolhido pela PF um e-mail do diretor da Kroll Eduardo Sampaio para o então presidente da empresa, Frank Holder, cujo assunto é: ''ABIN Candidate'', onde aparecem dados relativos a Astrid. Ontem, Astrid não retornou mensagem deixada em seu celular.
A Kroll teria faturado cerca de R$ 8 milhões entre 2003 e 2004, segundo documentos apreendidos na sede da empresa. Os papéis em poder da Polícia Federal mostram que o ex-servidor do Banco Central Alcindo Ferreira, responsável pela empresa AFF Câmbio, quebrou o sigilo bancário da Globo Par e entregou aos espiões da Kroll. Em troca, teria recebido R$ 630 mil da Kroll em três anos.