Título: Corpo de guerrilheira encontrado no Chile
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/05/2005, País, p. A6
O governo brasileiro anunciou ontem oficialmente a identificação dos restos mortais da desaparecida política Jane Vanini, morta em 1974 no Chile pela ditadura de Augusto Pinochet.
Jane Vanini foi assassinada pela repressão chilena em Concepción, a cerca de 500 km ao sul de Santiago. Na cidade, seu corpo foi enterrado num cemitério clandestino.
O ministro Nilmário Miranda, da secretaria de Direitos Humanos, disse que a ossada foi encontrada pelo governo chileno há algum tempo (não soube precisar quando) e identificada somente na última quinta-feira por meio do exame da arcada dentária.
Nilmário disse ter conversado com a família da brasileira anteontem e, a pedido dela, os restos mortais de Jane devem ser transportados para a sua cidade natal, Cárceres, em Mato Grosso.
Jane nasceu em 8 de setembro de 1945. No começo dos anos 60, se mudou para São Paulo para estudar Ciências Sociais. Ingressou na Ação Libertadora Nacional (ALN ), comandada por Carlos Marighela. Em 1969, viajou para Cuba, onde ficou dois anos recebendo treinamento de guerrilha. Ao retornar para o Brasil, entrou para o Movimento de Libertação Popular (Molipo), dissidência da ALN que tinha entre seus membros o ministro José Dirceu.
Condenada à prisão pela ditadura brasileira, Vanini se exilou no Chile em 1971. Lá, se uniu ao MIR (sigla em espanhol para Movimento Revolucionário de Esquerda) e começou a viver com o jornalista chileno Pepe Carrasco.
Após o golpe militar chileno, ela e Carrasco passaram a ser perseguidos. Jane Vanini acabou morta pela Dina (a polícia secreta de Pinochet) em 6 de dezembro de 1974.
Nilmário conta que a morte de Vanini foi descrita em carta enviada por Carrasco à família da brasileira. O jornalista acabaria sendo assassinado em 1986, como resposta da ditadura daquele país a atentado sofrido por Pinochet.
O governo chileno já havia reconhecido sua responsabilidade no desaparecimento da brasileira e, desde 1994, paga pensão à família.
Segundo Nilmário, dos brasileiros perseguidos pela ditadura, 160 estão desaparecidos. Desses, 12 devem ter morrido na Argentina e no Chile, sendo que apenas três deles tiveram seus corpos identificados até ontem. Vanini é o quarto caso.
A identificação da ossada trouxe alívio e paz para a família dela.
- O desaparecimento de Jane já foi um sofrimento grande para nós. A notícia da identificação da ossada traz a esperança de que tudo vai se arranjar. Traz também paz - garante Romano Vanini, irmão de Jane, que mora em Cuiabá.
Dulce Ana Vanini, irmã de Jane, disse ter sido informada da identificação da ossada por Nilmário, na sexta-feira. Segundo Dulce, a família não quis divulgar a informação para se preservar. O ministro, segundo Jane, não deu detalhes sobre como foi o reconhecimento.
Folhapress