Título: Clérigos ameaçam jihad aos EUA
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Fonte: Jornal do Brasil, 16/05/2005, Internacional, p. A8
Muçulmanos dão três dias para americanos punirem militares que teriam profanado o Corão
FAIZABAD, Afeganistão - Um grupo de clérigos muçulmanos afegãos ameaçou ontem convocar uma guerra santa (jihad) contra os Estados Unidos em três dias, a não ser que o país se desculpe e puna os militares da base de Guantánamo acusados de profanar o Corão, o livro sagrado do Islã. Nas ruas, os protestos continuavam, pelo quinto dia consecutivo.
Os líderes religiosos da província de Badakhshan (Norte) pediram que o presidente americano, George Bush, ''trate do assunto com honestidade e que entregue os culpados a um país islâmico para punição''.
''Se isso não acontecer em três dias, vamos lançar uma jihad'' - advertiram os cerca de 300 clérigos, em um comunicado posterior a uma reunião na principal mesquita da capital provincial, Faizabad.
Os clérigos muçulmanos são vistos tradicionalmente como líderes na sociedade afegã. Suas idéias costumam ter grande apoio popular e incitam levantes contra políticos e ocupantes estrangeiros.
Desde a quarta-feira, mais de 100 pessoas ficaram feridas na pior onda de protestos antiamericanos no Afeganistão, desde que os EUA invadiram o país em 2001 para derrubar o regime Talibã, por abrigar Osama bin Laden e sua rede Al Qaeda. A origem das manifestações foi uma reportagem publicada na edição de 9 de maio da revista Newsweek, que analisava os abusos cometidos na prisão militar americana na Baía de Guantánamo. A denúncia é de que alguns interrogadores ''haviam colocado o Corão nos banheiros, e que pelo menos uma vez haviam jogado na privada o livro sagrado''.
Os muçulmanos consideram o Corão a palavra literal de Deus e tratam cada exemplar com profunda reverência.
Entretanto, após ter sido pressionada durante a semana por autoridades do Pentágono, a Newsweek, admitiu ontem que a matéria original pode ter sido um erro.
''Lamentamos que parte da nossa história estivesse errada e enviamos nossa expressão de solidariedade às vítimas da violência e aos soldados americanos que sofreram com isso'', escreveu em editorial o editor da revista, Mark Whitaker.
Segundo a Newsweek, ao verificar as informações com um alto oficial americano que tinha lembrado de detalhes do incidente, este afirmou que não tinha mais certeza. E quando repórteres informaram ao porta-voz do Pentágono, Lawrence DiRita, sobre a resposta da fonte, ele teve um acesso de cólera:
- Tem gente morta por causa das declarações desse ''f.d.p.''. Como podemos acreditar nele agora? - esbravejou, lembrando o caso do Paquistão, onde 16 pessoas morreram nos protestos anti-EUA.
''Embora outras grandes publicações tivessem feito denúncias de profanação do Corão com base em declarações dos presos, achávamos que a nossa história era válida porque um funcionário do governo americano nos disse que os investigadores tinham encontrado provas'', escreveu Whitaker, ao pedir desculpas em nome da revista. ''Altos funcionários do governo prometeram continuar investigando a história''.
A Newsweek citou ainda Mark Falkoff, advogado de alguns presos de Guantánamo, que contou que uma tentativa de suicídio de 23 presos, em agosto de 2003, foi desencadeada pela atitude de guardas que pisaram em um exemplar do Corão, depois de deixá-lo cair no chão.
Numa tentativa de acalmar a fúria dos muçulmanos, os EUA afirmaram que estão promovendo uma investigação militar para apurar a suposta profanação do Corão. Mas a cada dia o protesto ganha adeptos. Na sexta-feira, islâmicos da Indonésia à Faixa de Gaza realizaram manifestações pacíficas, exigindo apuração de responsabilidades.