Título: CPI da propina desafia governo
Autor: Daniel Pereira e Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Jornal do Brasil, 17/05/2005, País, p. A3

Oposição quer investigar denúncia de corrupção envolvendo Correios e Roberto Jefferson. Governistas reagem

Com o apoio de partidos de oposição, a liderança do PSDB no Senado anunciou ontem que apresentará pedido de instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista para apurar o caso de corrupção envolvendo o chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, Maurício Marinho. Em conversa gravada com empresários, Marinho diz que cobra propina em nome do deputado Roberto Jefferson (RJ), presidente do PTB, partido que é da base de apoio ao governo. De pronto, interlocutores do Palácio do Planalto no Congresso deixaram claro que vão procurar as lideranças oposicionistas para evitar a CPI. Uma das estratégias é desqualificar Marinho. De acordo com o líder do PT no Senado, Delcidio Amaral (MS), o servidor é um mero chefe de departamento de uma estatal, que vendeu aos empresários um prestígio do qual não goza a fim de embolsar a propina. Trata-se, na versão do governo, cuja estratégia principal é lavar as mãos, de um caso isolado.

Delcidio e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), também lembrarão à oposição que a instalação da CPI, considerada desnecessária, enterrará as chances de aprovação de projetos considerados prioritários, como a reforma tributária e o marco das agências reguladoras.

- É um caso de conversa deplorável de um chefe de departamento no qual o governo agiu com rapidez - declarou Delcidio, referindo-se às medidas administrativas já adotadas para investigar o caso.

A oposição promete endurecer a negociação. Segundo o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), a CPI tem de ser instalada porque está sob suspeita um partido e, em conseqüência, o Congresso, e não o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

- Essas suspeitas de desvio de recursos públicos para pagar mesada a parlamentares estão desmoralizando o Congresso. Queremos que o Congresso não fique diminuído perante a opinião pública - declarou Bornhausen.

Ontem, PFL, PSDB e P-SOL disseram que assinarão o pedido de CPI. Afirmaram ainda que os partidos ''isentos e honestos'' seguirão o mesmo caminho. O recado remonta ao escândalo Waldomiro Diniz. Em manobra supostamente articulada pelo Planalto, lideranças partidárias e o ex-presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP) não indicaram os parlamentares para a CPI dos Bingos, que, apesar de ter o número de assinaturas necessárias, não saiu do papel. O caso está em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que pode obrigar o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a desengavetar a CPI.

- O PSDB não aceita que o governo procure desviar a atenção para o PTB, como se fosse caso isolado, quando tudo indica tratar-se de corrupção. Não aceita a farsa de o governo Lula estar investigando o governo Lula - diz o líder tucano Arthur Virgílio (AM) em nota.

Além de Delcidio, o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB), também considerou desnecessária a CPI. Bateu na tecla de que Marinho vendeu prestígio fictício. O funcionário disse que o diretor financeiro da Transpetro, Álvaro Gaudêncio Neto, foi indicado pelo PTB, mas ele é da cota do PMDB, segundo Suassuna. O senador afirmou ainda que a licitação para compra de medicamentos citada pelo funcionário não seria realizada pelo departamento de Recursos Humanos dos Correios, sob responsabilidade Robinson Viana da Silva. Viana da Silva é suplente de Suassuna e assumiu como senador quando o titular da vaga comandou o ministério da Integração Nacional.

- Estou muito tranqüilo. Há duas semanas, devolvi esse cargo ao governo - disse Suassuna. Ele acrescentou que a iniciativa não foi tomada por suspeita de corrupção por parte de seu suplente, mas porque os pedidos de cargos de outros peemedebistas não foram atendidos pelo governo.

Bem mais vazia do que o Senado, a Câmara também passou a segunda-feira debatendo a crise envolvendo PTB e Correios. Para o líder do PFL na Câmara, Rodrigo Maia (RJ), o governo precisa se explicar urgentemente.

- Quantos servidores do mesmo porte de Marinho não devem estar agindo por aí? - questionou.

Em relação ao envolvimento do deputado Roberto Jefferson, Maia é bem mais cuidadoso. Alega que é melhor aguardar o discurso do parlamentar na tarde de hoje, poupando de ataques um político próximo ao prefeito do Rio, Cesar Maia. A filha do deputado, Cristiane Brasil, vereadora pelo PTB, já foi secretária na prefeitura de Cesar Maia.

O líder do PP na Câmara, José Janene (PR), saiu em defesa de seu colega governista. Alegou que conhece a honestidade e seriedade de Jefferson. Janene jogou toda a culpa para as costas de Maurício Marinho.